O que a tecnologia me ensinou sobre gente, antes mesmo de eu virar psicóloga
Antes de estudar psicologia, vivi vários anos no universo da tecnologia. Na época, eu achava que estava aprendendo sobre sistemas, plataformas, processos e ferramentas. Hoje vejo que, sem perceber, eu estava aprendendo sobre gente e talvez tenha sido ali, no meio de códigos, bugs e deadlines, que minha vocação clínica começou a nascer.
Trabalhar com tecnologia me ensinou que pessoas também têm interfaces: tem quem funcione melhor com poucas abas abertas, quem trave quando muita coisa roda ao mesmo tempo, quem precise reiniciar depois de um erro e quem só responda em modos específicos de comunicação. E há quem, por fora, pareça organizado, objetivo e sólido, mas por dentro esteja processando muito mais do que consegue dar conta. Na clínica, vejo isso o tempo todo. Não chamamos de interface, mas de presença, defesa, personalidade.
No mundo tech, aprendemos que todo sistema, cedo ou tarde, dá erro, mas quando o erro é humano, chamam de defeito, drama ou fraqueza. A tecnologia me treinou a olhar para falhas de outro jeito, a perguntar: o que está conflitando aqui? O que entrou em loop? O que sobrecarregou o sistema? Essa mudança de lógica, sair do julgamento e entrar na investigação, me levou direto para a psicologia. No fim, boa parte da clínica é isso: acompanhar alguém enquanto ele tenta entender um bug que não aparece no log.
No trabalho, eu via diariamente como uma pequena falha de comunicação podia derrubar um projeto inteiro, ou como uma equipe inteira podia se reorganizar quando uma pessoa conseguia expressar o que estava sentindo. Mais tarde, descobri que isso tem nome: laço, transferência, dinâmica relacional. Tudo aquilo que, na tech, aparecia como “cultura da equipe”, na clínica eu descobri como o terreno onde a psique se desenvolve ou se defende.
Na tecnologia, tudo pede atualização: programa, método, linguagem, prática. Com gente é parecido, mas menos óbvio. Crescemos, mas seguimos rodando versões antigas de nós mesmos; processamos o mundo com comandos antigos, instalamos crenças que hoje dão conflito, carregamos pastas que já não fazem sentido. A clínica, nesse sentido, é quase um update manual: lento, profundo e cheio de telas de confirmação.
Quando percebi, estava mudando de área, entendi que não abandonei a tecnologia, apenas mudei de nível de sistema. Antes, eu analisava o código que rodava por fora. Agora, investigo o código que roda por dentro. E continuo acreditando que nada é mais fascinante do que isso: descobrir que, no fundo, toda tecnologia é sobre gente, e toda gente é sobre organização interna, estrutura, processamento e desejo.
No fim, minha trajetória não é uma troca de carreiras. É uma continuidade. E ainda está só começando.
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