Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Outro sonho: o roubo das obras de arte

Praticando a interpretação dos sonhos. Mais um caso da clínica ...

Ela contou que estava em sua mansão, enorme, organizando uma festa grandiosa para muitas pessoas. A casa estava lotada de convidados que ela reconhecia, como sua família, mas também havia muitas outras pessoas desconhecidas, como se fossem agregados. Todos pareciam se divertir muito. Ela descreveu a festa como impecavelmente planejada, com enfeites deslumbrantes, bebidas, comidas e garçons, todos vestidos de gala. A mansão, segundo ela, estava repleta de obras de arte valiosas e impressionantes. No entanto, em determinado momento, algumas pessoas começaram a pegar as obras de arte e a roubá-las. Ela contou que, desesperada, tentou orientá-las, pedindo com urgência que não levassem nada. “Por favor, não as levem, são minhas!”, dizia ela no sonho.  

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Interpretação do sonho:

Este sonho parece simbolizar um cenário de excessos e contrastes, onde a opulência e a generosidade convivem com o medo da perda e a sensação de impotência diante daquilo que foi conquistado.

A mansão, em primeiro lugar, pode representar o seu sentido de identidade, um símbolo de status ou de algo que você construiu ao longo do tempo. O fato de ser grande e cheia de pessoas indica que sua vida está cheia de interações e diferentes relações, algumas das quais podem ser mais superficiais ou desconhecidas para você, como as pessoas "agregadas" que não faziam parte do seu círculo íntimo. Esse detalhe pode refletir um sentimento de sobrecarga ou até confusão sobre quem você realmente considera próximo e quem faz parte da sua vida de forma genuína.

A festa, grandiosa e bem planejada, sugere uma fase de realização, de sucesso e prazer. No entanto, há um contraste com o momento em que as obras de arte começam a ser roubadas. As obras de arte, que podem simbolizar o seu trabalho, suas conquistas ou aspectos de sua identidade pessoal e criativa, são tomadas sem seu consentimento. Isso pode representar um medo inconsciente de que as coisas que você mais valoriza, seja no campo profissional ou pessoal, possam ser apropriadas ou usurpadas por outros, ou até que você perca algo essencial de sua essência. A tentativa de intervir e pedir para que não levem as obras revela uma sensação de impotência, como se você estivesse tentando proteger o que é seu, mas sentisse que, talvez, não tenha controle total sobre as situações que envolvem suas conquistas e aquilo que mais preza.

As pessoas que roubam as obras de arte podem representar partes de sua vida que você sente que estão fora de seu controle ou até figuras que você sente que querem se beneficiar do seu sucesso de maneira indevida. Esse roubo pode, então, estar relacionado a uma sensação de vulnerabilidade diante de ameaças externas ou uma insegurança sobre a integridade de suas conquistas.

No nível emocional, esse sonho pode refletir um medo de ser desvalorizada ou de ver suas realizações desfeitas ou tomadas por outros, sem que você tenha a chance de proteger o que é seu. Esse temor pode surgir em situações em que você sente que não pode confiar totalmente nas pessoas ao seu redor ou em que sente que precisa proteger sua identidade e suas conquistas de formas mais ativas. A festa, que inicialmente é uma celebração, acaba sendo marcada pela presença de um perigo silencioso, que é a perda de algo importante para você.

Por fim, a ação de tentar proteger as obras de arte também pode ser uma representação de um desejo de controle sobre o seu destino, mas o fato de não conseguir impedir o roubo sugere uma sensação de impotência diante de forças externas. Isso pode ser uma reflexão de como você se sente em relação a certos aspectos da vida que parecem estar além da sua capacidade de defesa ou controle.

Esse sonho parece, então, sinalizar uma necessidade de reforçar a segurança emocional e o sentido de proteção sobre suas conquistas, seja no campo material, emocional ou relacional, e talvez também de questionar até que ponto você está permitindo que outros invadam ou utilizem algo que você considera íntimo e essencial. 


Um sonho: um dente caiu

Praticando a interpretação dos sonhos. Mais um caso ...

Hoje, ao acordar, ele relatou que a sensação do sonho ainda estava viva em sua mente, como se o eco de sua imagem tivesse se colado nele. Ele descreveu estar no meio de uma conversa banal e, de repente, sentir uma sensação estranha na boca. Ao olhar para o espelho, com uma mistura de espanto e perplexidade, percebeu que um de seus dentes havia caído. Não foi uma queda simples, disse ele, mas uma sensação profunda, como se algo essencial tivesse sido arrancado de dentro de si.

O primeiro pensamento que teve foi de pânico. O dente estava ali, agora ausente, e a sensação de vazio parecia avassaladora. A falta era como um buraco que não poderia ser preenchido. Ele disse sentir que uma parte de si tinha se perdido, mas, estranhamente, começou a experimentar uma sensação de alívio. Algo que estava preso, algo que talvez não fosse mais necessário, finalmente se foi.


Ele descreveu a imagem do dente caído no sonho como algo tão vívido que começou a se perguntar por que aquele símbolo o visitara. Será que refletia algo sobre sua vida? Para ele, o dente, que simboliza tanto a vitalidade quanto o envelhecimento e o cuidado consigo mesmo, agora perdido, parecia carregar um significado mais profundo. Ele concluiu que talvez estivesse diante de um momento de transição, de algo que não podia mais ser mantido, mesmo que isso causasse dor ou desconforto. A perda, embora dolorosa, parecia também ser um sinal de renovação, de uma mudança inevitável.

No sonho, ele contou, ninguém parecia se importar muito com a perda do dente. Era como se, ao contrário dele, o mundo ao seu redor seguisse sem grandes questionamentos. Isso o fez refletir sobre a sensação de invisibilidade que, por vezes, experimentamos na vida, como se nossos medos e inseguranças estivessem ali, expostos, enquanto outros simplesmente seguiam em frente, indiferentes.

Ao despertar, disse ter ficado com uma sensação misturada entre preocupação e reflexão. Para ele, o dente caído não era apenas uma perda física no sonho, mas uma perda simbólica, talvez de algo que precisasse ser liberado, de um peso emocional que já não fazia mais sentido carregar. Ao mesmo tempo, o sonho parecia um lembrete de que, ao perder algo, ainda há uma parte de nós que precisa se reconstruir, se adaptar à nova realidade, à nova versão de si mesmo que nasce da experiência de perda.

Ele terminou dizendo que ficou pensando sobre o que, em sua vida, talvez precisasse "deixar ir", o que, como o dente, já tivesse cumprido seu ciclo e precisasse ser expulso para que algo mais saudável pudesse surgir. O sonho o deixou com uma sensação de questionamento e possibilidade — de que, mesmo na perda, há espaço para o novo, para a renovação, para a transformação. E, por fim, refletiu, disse que talvez, no fundo, o sonho quisesse lhe dizer exatamente isso: que o que cai não é o fim, mas uma oportunidade de recomeçar.

Ele mesmo havia interpretado seu próprio sonho. E é isso mesmo. O sonho é do sonhador.

Assim, terminava a sessão. Inicio, Meio e Fim. A analista não disse uma única palavra !!! 

O pior de todos!

O pior de todos - 

Eu me salvei de rodar aqui e rodar ali sem chegar a nenhum lugar! 

Os entendedores me entenderam! 

Antes de conhecê-lo de perto, confesso que a impressão que tinha era bem diferente. Eu o via como alguém simpático, talvez inteligente —  Mas a convivência tem o poder de revelar aquilo que o exterior não consegue esconder por muito tempo. E, nesse caso, a aparência logo se esvaiu. Porque o que permanece, é um conjunto: está nas atitudes, no caráter, na forma de tratar os outros. E nada disso estava lá.

Conviver com ele foi como testemunhar uma máscara se desmanchando. O que antes parecia ser charme, se revelou arrogância. O que parecia inteligência, não passava de prepotência vazia. A convivência trouxe à tona a verdade: por mais que alguém possa parecer aceitável à primeira vista, quando falta essência, tudo perde o brilho.

A você, que me ensinou tanto pelo avesso, deixo aqui minha mais sincera homenagem. Não pelo que fez de bom — afinal, disso nada posso recordar —, mas pela clareza com que me mostrou o que não quero ser. Você é a personificação de tudo aquilo que me esforço para evitar: a prepotência disfarçada de confiança, a grosseria mascarada de "autenticidade" e o puxa-saquismo que veste a roupa da diplomacia. Cada palavra ácida, cada gesto mesquinho e cada atitude egoísta foram lições que jamais esquecerei.

Você me ensinou que a arrogância não é força, mas fraqueza. Que tratar os outros com desprezo é sinal de insegurança, não de superioridade. Que se esconder atrás de sorrisos falsos para quem está acima e virar as costas para quem está ao lado é o caminho mais curto para o isolamento. Talvez esse é o motivo de você estar sempre só ou mal acompanhado.

Por tudo isso, agradeço. Obrigado por ter me sacaneado tanto. Por ter feito de cada obstáculo uma oportunidade de me reinventar. Por me obrigar a crescer na marra, enquanto você, na sua pequena bolha de vaidade, segue patinando no mesmo lugar. Obrigado por ser o anti-exemplo que me impulsionou a ser melhor, a tratar os outros com respeito, a construir relações verdadeiras e a ter orgulho de quem sou, sem precisar pisar em ninguém para isso.

De certa forma, você me deu um presente. Não pela sua intenção, é claro, mas pelo efeito contrário que sua presença teve na minha vida. Então, em nome do aprendizado que você nunca quis ensinar, mas que, ironicamente, ensinou tão bem: obrigado por ser exatamente quem é.  

quarta-feira, 15 de janeiro de 2025

Você É Muito Eficiente, Tem Que Fazer Um Furo

A eficiência é, sem dúvida, uma virtude. Em um mundo que exige tanto de nós, ser eficiente é algo que nos coloca em movimento, que nos dá resultados, que nos faz sentir capazes. Mas, como toda virtude, ela também pode se tornar uma armadilha. Quando somos muito eficientes, nos tornamos máquinas de resolver, de fazer, de executar. E, sem perceber, a eficiência começa a preencher todos os espaços — até aqueles que deveriam ficar vazios para que algo novo pudesse surgir.

E é aí que entra a necessidade do furo.

Fazer um furo significa interromper o fluxo incessante da produtividade. Significa criar um vazio, um intervalo, um espaço onde a eficiência não seja protagonista. Um furo no tecido perfeito das obrigações, das metas, dos prazos. Um furo no controle excessivo que você exerce sobre si mesmo e sobre tudo ao redor. Não para que você se torne menos capaz, mas para que possa respirar e perguntar: o que realmente importa aqui?

A eficiência, muitas vezes, nos coloca em um ritmo que não permite questionamento. Estamos sempre resolvendo o que aparece, apagando os incêndios, entregando o que nos pedem. Mas será que sempre sabemos por que estamos fazendo o que fazemos? Será que, nessa eficiência implacável, não estamos deixando de lado a oportunidade de criar algo que vá além do imediato? Fazer um furo é permitir que a luz passe, que algo inesperado entre, que o incômodo surja. É deixar de apenas funcionar e começar a se perguntar se você está, de fato, vivendo.

O furo é incômodo porque ele quebra o ritmo. Ele expõe fragilidades que a eficiência costuma mascarar: cansaço, insatisfação, a sensação de que algo está sempre faltando, mesmo quando tudo parece em ordem. É no vazio do furo que essas questões aparecem, e é exatamente por isso que ele é tão necessário. Ele nos obriga a parar e encarar aquilo que a eficiência não consegue resolver.

Fazer um furo não é negligência, não é preguiça, não é desistência. É um ato de coragem. É olhar para além da produtividade, além do sucesso mensurável, e se conectar com o que realmente importa para você. Porque, no fim das contas, eficiência sem propósito é como correr em círculos: você pode até se sentir ocupado, mas não está indo a lugar algum.

Faça um furo. Interrompa o automático. Permita que o silêncio, o espaço vazio, a incerteza, se tornem parte do processo. Porque é nesses furos que a criatividade nasce, que o verdadeiro sentido aparece. A eficiência é importante, mas não define tudo o que você é. Às vezes, é no vazio que você encontra a sua maior riqueza.

Você Tem Uma Fantasia de Que Será Colocado Para Dentro

Existe, em muitos de nós, uma expectativa quase invisível, um desejo silencioso: o de ser colocado para dentro. Essa fantasia é a de que, em algum momento, alguém abrirá as portas de um lugar ao qual sentimos que não pertencemos e dirá: "Venha, você é um de nós agora." É a esperança de ser acolhido, reconhecido, validado. De finalmente pertencer.

Essa fantasia, embora pareça reconfortante, muitas vezes nos aprisiona. Ela cria uma espera interminável, uma dependência do olhar do outro para legitimar quem somos. É como se ficássemos na soleira de uma porta, hesitando, torcendo para que alguém a escancare e nos conduza para um espaço onde, finalmente, nos sentiremos aceitos e completos. Mas a pergunta que precisamos nos fazer é: esse lugar realmente existe?

A fantasia de ser colocado para dentro é alimentada pela sensação de exclusão que todos, em algum nível, já sentimos. Seja no grupo de amigos, na família, no trabalho, ou até mesmo em nossas relações mais íntimas, carregamos feridas de momentos em que não fomos vistos, ouvidos, ou aceitos como somos. Esses momentos plantaram em nós a crença de que pertencimento é algo que vem de fora, algo que depende do convite de alguém, de uma aprovação externa.

Mas essa fantasia esconde um paradoxo: quanto mais esperamos ser colocados para dentro, mais nos colocamos para fora. Ao esperarmos que o outro nos valide, que o mundo nos reconheça, negamos a nós mesmos o poder de abrir a porta. Esquecemos que o lugar onde queremos estar não é um espaço físico, nem mesmo um grupo ou um status. O lugar que buscamos é, antes de tudo, dentro de nós mesmos.

A verdade é que ninguém vai nos colocar para dentro porque o pertencimento genuíno não se dá por concessão. Ele é construído por nós, a partir do momento em que paramos de olhar para a porta como algo que nos separa, e começamos a perceber que talvez ela nem exista. O que nos impede de nos sentirmos "dentro" não é a ausência de um convite, mas a crença de que precisamos dele para começar a viver plenamente.

Reconhecer essa fantasia é doloroso, porque implica abrir mão de uma ilusão que, por muito tempo, nos deu conforto. Mas também é libertador. Significa tomar para si a responsabilidade de criar o próprio lugar, de decidir que pertencemos, independentemente de qualquer validação externa.

Você não precisa esperar ser colocado para dentro. Você já está dentro, no único lugar que importa: dentro da sua história, da sua vida, da sua autenticidade. A porta que você acha que precisa atravessar talvez seja apenas um reflexo do medo de se apropriar de quem você é. Abra essa porta — ou melhor, perceba que ela nunca esteve trancada. E entre, não porque alguém o convidou, mas porque esse lugar sempre foi seu.

Auto-suficiência: Antídoto para Amar

A busca pela auto-suficiência muitas vezes se coloca como uma armadilha que, ao invés de nos liberar, nos priva das possibilidades mais autênticas de nos conectarmos com o outro. Em uma sociedade que exalta a independência e a autonomia como virtudes supremos, o conceito de amar parece ter se desvirtuado. Amar, em muitas das vezes, se torna um exercício de autoafirmação, onde o outro é visto como algo a ser consumido, validado ou, muitas vezes, como um reflexo de nossas próprias necessidades não atendidas.

A auto-suficiência, quando entendida como o valor supremo, torna-se um escudo contra as vulnerabilidades do afeto. Em nome da preservação de uma imagem idealizada de nós mesmos — fortes, invulneráveis e autossuficientes — nos afastamos da experiência genuína de amar. Afinal, o que é o amor senão a disposição de se expor ao outro, de permitir que ele nos toque e que, de alguma maneira, ele também nos molde? O amor verdadeiro não surge de uma relação em que estamos em posição de quem tem o controle ou de quem não precisa de nada. Ao contrário, ele nasce da entrega, da fragilidade compartilhada e da aceitação do que o outro tem a oferecer, sem esperar que ele seja um mero espelho de nossas carências.

Quando a auto-suficiência se torna um ideal, ela nos convence de que precisamos ser completos antes de nos permitir ser amados. Assim, a expectativa de que devemos estar sempre em plenitude, sem falhas, sem espaços a serem preenchidos, se transforma em uma barreira invisível, impedindo a aproximação verdadeira. O outro é visto como alguém que precisa ser "consertado", "ajustado" ou "perfeito", o que reduz o amor a uma relação de expectativas e frustrações.

Entretanto, o amor não requer que sejamos completos para dar ou receber afeto. Pelo contrário, ele nasce justamente quando somos capazes de reconhecer e aceitar nossas imperfeições, as lacunas que existem em nós e, assim, permitir que o outro nos complemente, nos desafie e até mesmo nos ensine. A auto-suficiência, como antidoto, nos faz acreditar que ser amável é uma fraqueza, que depender do outro é algo indigno. Mas, na verdade, é na vulnerabilidade e no compartilhamento que o amor se intensifica. Amar é abrir-se para a possibilidade de ser modificado, de ser tocado por aquilo que o outro tem a oferecer, sem a necessidade de ser "completo" para isso.

Na vida, o amor não se sustenta na ideia de ser auto-suficiente, mas na construção de algo compartilhado. O amor real não teme a dependência, nem se esquiva da fragilidade, pois sabe que é nesse espaço que ele floresce. Ao adotar a auto-suficiência como a principal virtude, fechamo-nos para as trocas que realmente enriquecem e transformam. Talvez, o maior desafio seja deixar de lado essa ilusão de perfeição e, em vez disso, permitir-se a leveza da vulnerabilidade. Só assim podemos ser verdadeiramente amados, e mais importante ainda, amar com a profundidade que a vida realmente pede de nós.

A vida é bela

Sim, alguns pacientes realmente deixam uma marca profunda na gente. Eles trazem histórias tão únicas, com desafios e superações que nos fazem repensar nossa própria visão de mundo. A forma como conseguem lidar com situações tão complexas ou, às vezes, até inovadoras na maneira de enfrentar suas dificuldades, nos inspira e nos ensina muito. Quando um paciente sai da "caixa", faz algo inesperado ou encontra soluções criativas para os seus problemas, é impossível não se envolver, torcer pelo seu progresso e até aprender com eles. Esses momentos nos lembram da importância de cada ser humano, da força que carregam dentro de si e de como a nossa função é, muitas vezes, apenas dar o apoio necessário para que eles possam revelar o melhor de si.


Vou tentar resumir um desses casos. De uma mãe de duas filhas, já na casa dos 60+. Ela me contou em uma sessão como ela fez para não transferir suas dores para suas filhas e eu achei o seu depoimento muito rico. Vou transcrever aqui tentando, ao máximo, usar as palavras dela:

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Minha história com minhas filhas é um pouco parecida com o que acontece no filme A Vida é Bela. Eu as protegi de muitas coisas ruins, tanto da minha família quanto da família do meu marido. Queria que elas vivessem uma infância distante das duras realidades que eu mesma passei. O meu objetivo sempre foi criar um ambiente onde elas pudessem se desenvolver de forma saudável, sem o peso das dificuldades externas. Eu tentava "enfeitar" a cena quando necessário, para que a infância delas fosse cercada de amor e explicações que ajudassem a suavizar as situações difíceis. Eu "maquiava" a realidade, explicando de forma simplificada, para que elas entendessem o que estava acontecendo sem que precisassem internalizar o sofrimento. Isso permitiu que elas formassem vínculos afetivos saudáveis e preservassem a inocência emocional.

Elas puderam brincar com os primos, se relacionar com eles de maneira natural, e em nenhum momento precisaram entender as discussões dos adultos, os maus relacionamentos ou as tensões entre os membros da família. Tudo isso passou batido, sem que elas internalizassem nenhum tipo de conflito ou desconforto. Eu e meu marido fizemos questão de nunca fazer críticas severas a outros familiares na presença delas. Criamos uma atmosfera onde parecia que todos se davam bem, que tudo estava bem e que tudo era saudável. Assim, elas puderam vivenciar os conflitos normais da idade, aqueles com os quais eram capazes de lidar, sem que os problemas dos adultos invadissem o seu mundo infantil.

Eu as cercava de um ambiente de afeto, onde o amor era a base para que pudessem crescer protegidas, sem o peso das dificuldades externas que eu sabia que seriam difíceis demais para elas. Eu sabia que, na infância, certos sofrimentos não poderiam ser compreendidos sem causar um impacto emocional profundo. Quando elas cresceram, revisitaram o passado e tiraram suas próprias conclusões, enfrentando a realidade. Como o garotinho do filme, que viveu a guerra sem entender o terror ao seu redor, achando que tudo era uma brincadeira, minhas filhas viveram sua infância sem internalizar os sofrimentos e as complexidades do mundo adulto. Isso foi possível porque, naquele momento, eu sabia que seria muito pesado para elas. Só depois, com mais maturidade, elas conseguiram compreender o valor do amor que ofereci e o quanto isso as protegeu emocionalmente.

Esse gesto de proteção, que para alguns pode ter sido incompreendido, foi um ato profundo de amor. Ao blindá-las de certas realidades, eu criei um espaço seguro onde o vínculo afetivo fosse o alicerce de suas vidas. Elas cresceram sem a interferência direta das complexidades e dores do mundo adulto. Assim, puderam se desenvolver com carinho e sem o peso das adversidades, formando seus próprios vínculos e memórias saudáveis.

Quando minhas filhas se tornaram adultas, começaram a revisar o passado com os olhos de quem já tinha maturidade para entender a complexidade da realidade. Elas passaram a compreender, por si mesmas, o que estava além da proteção que eu havia criado. Como o menino do filme, que ao crescer entendeu a realidade da guerra e o sacrifício do pai, minhas filhas, ao amadurecerem, foram capazes de perceber o valor profundo da proteção que eu lhes dei.

Esse processo de revisitar o passado não significa que elas rejeitem a proteção ou a maneira como as coisas aconteceram. Ao contrário, significa que entenderam a importância do amor e da proteção que ofereci, os quais foram fundamentais para que elas se mantivessem emocionalmente seguras. Elas passaram a perceber como o cuidado e o amor foram essenciais para que pudessem crescer com segurança e, mais tarde, com maturidade emocional. Assim como o garoto do filme, que ao crescer entendeu a necessidade de ser protegido do terror da guerra, minhas filhas, ao revisitar sua história, perceberam o quanto o amor que receberam foi crucial para seu crescimento emocional saudável.

E, mesmo hoje, entendendo que houve, sim, uma blindagem, elas mantêm um profundo respeito pelos avós e uma adoração imensa pelos primos. Suas memórias da infância são recheadas de momentos incríveis, de uma infância saudável, protegida pelo amor e pela construção de vínculos genuínos. Elas compreendem o que fiz por elas, mas a admiração e o carinho pelas pessoas que fazem parte de sua história permanecem inabaláveis. Isso mostra que a proteção e o amor foram fundamentais para que, apesar das dificuldades, elas tivessem um ambiente onde cresceram felizes e plenas.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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