O universo da tecnologia é, talvez, um dos que melhor encarnam o espírito do nosso tempo: velocidade, produtividade, otimização constante e a promessa de que todo problema pode ser resolvido com a ferramenta certa. Há sempre um novo framework, um novo método, um novo sistema capaz de corrigir falhas, reduzir riscos e aumentar performance.
Mas há algo que não se deixa organizar em sprints, nem se resolve com entregas: o sujeito.
Na clínica, é cada vez mais comum ouvir profissionais da tecnologia chegarem com uma sensação difusa de esgotamento, vazio ou inadequação, mesmo quando “tudo parece estar dando certo”. Bons salários, reconhecimento técnico, empresas desejadas e ainda assim, uma angústia que insiste. A pergunta costuma aparecer disfarçada: “O que mais eu deveria estar fazendo para me sentir melhor?”
A psicanálise nos ensina que essa pergunta já nasce deslocada. Porque ela supõe que o mal-estar é um bug a ser corrigido, quando, na verdade, ele é estrutural.
Freud já apontava que o sofrimento humano não é um acidente de percurso, mas parte da própria condição de viver em civilização. Lacan radicaliza isso ao mostrar que o sujeito é constituído por uma falta, algo que nenhum sistema, por mais sofisticado, consegue preencher. O problema é que o discurso da tecnologia promete exatamente o contrário: eficiência total, previsibilidade, controle.
Para muitos profissionais de tech, o trabalho se torna o lugar privilegiado para tentar tampar essa falta. Produzir mais, aprender mais, entregar melhor, subir mais rápido. O saber técnico vira um ideal: se eu dominar tudo, não falto. Mas quanto mais se corre atrás desse ideal, mais ele se afasta. A lógica é cruel: o reconhecimento nunca é suficiente, a próxima meta já está posta, o upgrade nunca termina.
Na linguagem lacaniana, trata-se de um sujeito capturado pelo discurso do mestre contemporâneo, hoje travestido de discurso da performance. Um discurso que exige gozo, produtividade e disponibilidade contínua, enquanto promete pertencimento e valor. Só que cobra caro: o corpo adoece, o desejo empobrece, a vida vai ficando estreita.
Outro ponto recorrente na clínica é a confusão entre função e identidade. “Eu sou o que eu faço.” Quando o cargo muda, o projeto acaba, a empresa corta, algo desmorona por dentro. Não é só a perda do trabalho, é a perda de um lugar simbólico. E aí surge a pergunta que não estava prevista: quem sou eu sem esse lugar?
A psicanálise não oferece respostas prontas nem planos de carreira emocional. Ela oferece algo mais incômodo e mais necessário: um espaço onde o sujeito pode falar sem precisar performar, sem precisar entregar, sem precisar ser excelente. Um espaço onde a falta não é um erro, mas um ponto de partida. Para profissionais de tecnologia, isso costuma ser uma experiência radicalmente nova. Estar em um lugar onde não se espera eficiência, onde o silêncio conta, onde não há expectativas de melhora. Aos poucos, algo se desloca: o sujeito começa a perceber que não precisa ser inteiro, completo, resolvido.
Não se trata de abandonar a tecnologia, nem de demonizar o trabalho. Trata-se de desalojar o ideal de que o trabalho pode responder a tudo. Quando isso cai, o trabalho pode voltar a ser o que deveria ser: uma parte da vida e não o lugar onde se tenta resolver a própria existência. Talvez o maior ganho para quem passa pela análise seja este: aprender que nem tudo precisa ser otimizado. Que há perguntas que não pedem solução, mas escuta. E que, às vezes, o mais ético não é produzir mais, mas sustentar um intervalo. Porque o sujeito não é um sistema e o desejo não roda em segundo plano.
