Andréa Ruas Martins - Psicóloga/Psicanalista - CRP 06/231415 - Clínica PsiTech - Psicologia e Tecnologia - Bairro Campo Belo - Cidade São Paulo/SP - Site oficial: clinicapsitech.com.br

Introdução

Você dá conta de tudo? Pelo menos é isso que parece. O trabalho anda, as responsabilidades são cumpridas, a rotina segue. Mas existe um cansaço que não passa. Uma sensação de estar sempre em falta, como se nada fosse suficiente. A mente não desliga. O descanso não chega. E, mesmo quando tudo está “sob controle”, algo insiste. Muitas vezes, não é falta de organização, nem de disciplina. É outra coisa, mais silenciosa, mais difícil de nomear. Meu trabalho é oferecer um espaço de escuta para isso. Para o que não se resolve com produtividade, planejamento ou autocobrança. Não se trata de dar respostas prontas, mas de possibilitar que você escute algo do seu próprio desejo, para além das exigências que te atravessam. Atendo pessoas que vivem sob pressão constante, com dificuldade de se desligar do trabalho, lidando com ansiedade, excesso de autoexigência e uma sensação persistente de insuficiência. Se algo disso te toca, você pode me escrever. Podemos começar por uma conversa.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Questione

Vivemos em um mundo onde a informação chega até nós em um ritmo acelerado, e muitas vezes, sem que nos deem tempo para refletir sobre ela. Somos bombardeados por opiniões, padrões, crenças e "verdades" que, muitas vezes, não paramos para questionar. Existe uma grande pressão para simplesmente aceitar o que é dito, o que é escrito, o que é imposto pela tradição ou o que todos ao nosso redor estão fazendo. Mas será que devemos simplesmente seguir esse fluxo sem fazer uma análise crítica?

Não acredite em algo só porque ouviu falar.

A nossa sociedade está saturada de boatos, opiniões não fundamentadas e informações distorcidas. Às vezes, repetimos algo porque alguém nos disse, ou porque parece ser conveniente, sem questionar a origem dessa informação ou sua veracidade. A ideia de simplesmente "passar adiante" o que ouvimos sem verificar é algo perigoso. Afinal, somos seres pensantes, não ecos. Desafiar o que nos é dito e buscar as fontes reais de informação é um passo fundamental para não nos tornarmos parte do ciclo de desinformação.

Não acredite só porque todos acreditam.

O efeito de manada é real, e todos nós já fomos influenciados por ele em algum momento. "Se todo mundo está fazendo, então deve ser o certo." Mas, na verdade, a maioria nem sempre está certa. Tradicionalmente, seguimos aquilo que é popular ou socialmente aceito, sem questionar a fundamentação por trás da ideia. E se, de fato, todos estão errados? Questionar o consenso popular é, muitas vezes, a chave para descobertas inovadoras e transformadoras. É preciso coragem para ir contra a corrente e dar voz ao que realmente acreditamos ser certo.

Não acredite só porque está escrito nos livros.

Os livros são uma das maiores fontes de conhecimento, mas também são limitados pela visão e contexto de seus autores. As informações ali contidas refletem, muitas vezes, uma perspectiva específica que pode estar desatualizada ou até ser equivocada. Não se trata de desmerecer o conhecimento escrito, mas de reconhecer que a sabedoria é viva e dinâmica. O que aprendemos com os livros deve ser desafiado e ampliado pela nossa própria experiência, pela observação do mundo real e pelo desenvolvimento do nosso próprio raciocínio.

Não acredite só porque seus mestres dizem que é verdade.

A figura do mestre ou mentor é fundamental no processo de aprendizado. No entanto, um bom mestre não é aquele que exige obediência cega, mas aquele que nos encoraja a pensar por nós mesmos. Questionar o que é ensinado, sem medo de errar ou desafiar, é uma habilidade essencial para o crescimento intelectual. Os mestres são guias, mas a jornada de aprendizado é sua. Faça da dúvida e da reflexão os seus maiores aliados, pois o verdadeiro conhecimento só nasce a partir do questionamento.

Não acredite em tradições só porque vieram de geração em geração.

A tradição carrega uma grande carga de sabedoria, mas também pode ser um reflexo de hábitos ou crenças que já não fazem mais sentido no contexto atual. Continuar com práticas ou ideias apenas porque "sempre foi assim" pode limitar o nosso potencial de evolução. Tradicionalmente, a sociedade foi formada por uma série de normas e valores que eram seguidos por pura convenção. No entanto, a tradição não deve ser um dogma, mas sim um ponto de partida para reflexões mais profundas sobre o que é realmente valioso para o nosso tempo.

Faça sua própria análise e observação.

No fim das contas, a única forma de realmente entender o mundo ao nosso redor é através da nossa própria observação e análise. Buscar respostas dentro de nós mesmos e nas experiências que vivemos é o caminho mais autêntico para construir a nossa visão de mundo. Não se trata de ser cético ou negar tudo o que nos é dado, mas sim de desenvolver a habilidade de perceber, questionar e compreender. Cada um de nós tem a capacidade de formar seu próprio entendimento — e isso não só nos torna mais conscientes, mas também mais responsáveis pelas escolhas que fazemos.

Mais do que imagem: como nos apresentamos ao mundo

Vivemos em um tempo em que tudo comunica. O modo como falamos, nos vestimos, organizamos nossos espaços e até como navegamos nas redes sociais constrói uma narrativa — sobre quem somos, o que acreditamos, o que queremos (ou não) mostrar. Essa narrativa, no entanto, não é neutra. Ela carrega intenções, expectativas, inseguranças, desejos. E por trás de tudo isso, está algo mais profundo: a forma como nos vemos e como queremos ser vistos.

A maneira como nos apresentamos ao mundo reflete, de forma direta ou sutil, o nosso nível de autoconfiança, autoestima e autoconceito. Seja no ambiente de trabalho, nas interações sociais ou no universo digital, estamos o tempo todo nos colocando em cena. E essa cena pode ser autêntica, estratégica ou até defensiva — dependendo do que está em jogo.

A partir da psicologia, sabemos que a identidade não é uma estrutura fixa. Ela se constrói na relação com o outro, com a cultura, com o tempo. Por isso, cuidar da nossa imagem externa — longe de ser vaidade — pode ser um movimento legítimo de coerência entre o que somos e o que mostramos. É aqui que entra o papel dos consultores de imagem: ajudar você a expressar sua essência, seus valores e seus objetivos por meio de escolhas conscientes. As roupas, os acessórios, as cores, os tecidos — tudo isso deixa de ser apenas estética e passa a ser expressão.

Mas não é só sobre o que vestimos. É também sobre onde habitamos. Nosso ambiente físico impacta diretamente nossa saúde mental, produtividade, criatividade e bem-estar. Um espaço caótico, mal iluminado ou entulhado de coisas que não fazem mais sentido pode gerar uma sensação constante de desorganização interna. Por isso, organizadores profissionais ajudam a transformar espaços em aliados do cotidiano. A organização passa a ser uma forma de cuidado com a mente — porque, muitas vezes, colocar a casa em ordem é um passo importante para reorganizar a vida.

Neste blog, trago essa abordagem integrada: um olhar que nasce da minha experiência no mundo corporativo da tecnologia, agora atravessado pela psicologia. Já fui gestora, já fui liderança, já fui “pau pra toda obra” — e vi de dentro como o ambiente de trabalho pode moldar, adoecer, impulsionar ou silenciar subjetividades. Vi como a performance é exaltada e a vulnerabilidade é escondida. Como o “parecer” muitas vezes vale mais do que o “ser”. E como a forma como você se apresenta — sua imagem, seu discurso, sua organização — pode abrir ou fechar portas, pode te preservar ou te expor.

Aqui falamos de Inteligência Artificial, Metaverso, Carreira, Luto, Ansiedade, Relacionamentos e escolhas do cotidiano. Mas falamos, principalmente, de sentido. De como encontrar coerência entre o que você vive por dentro e o que você mostra por fora. De como alinhar discurso e prática. De como transformar a apresentação pessoal em um gesto de autenticidade — e não de obrigação.

É um convite: a olhar para você com mais profundidade, mais cuidado, mais escuta. Porque, no fim das contas, não é sobre se encaixar num padrão. É sobre construir uma presença que seja sua. Em todos os lugares: na sua casa, no seu corpo, na sua carreira e nas suas relações.

Seja bem-vindo(a) ao espaço onde psicologia encontra tecnologia, e estilo encontra significado.

Você é o cargo que ocupa? identidade ou utilidade

"Se você é pau pra toda obra, pode se preparar: toda hora vai ter obra." 

A frase circula como piada, mas descreve com precisão uma dinâmica recorrente nas organizações contemporâneas.

Ambientes que se propõem inovadores, ágeis e orientados a desempenho frequentemente recompensam a hiperdisponibilidade com mais carga de trabalho. O profissional que se mostra capaz de resolver múltiplas demandas, que assume responsabilidades fora de escopo e mantém uma postura de prontidão contínua, rapidamente se torna o “recurso estratégico” — mas, paradoxalmente, também o mais vulnerável.

Essa lógica não se baseia em reconhecimento genuíno. Ela se ancora na utilidade. Em vez de sujeito, o trabalhador passa a ocupar o lugar de meio, de peça funcional que precisa operar com eficiência, sem falhas e sem pausa.

A psicologia organizacional há muito tempo aponta os riscos dessa configuração. Quando o valor profissional é medido exclusivamente por entregas, e não por vínculos, limites ou sustentabilidade emocional, o esgotamento se torna inevitável. O burnout, cada vez mais presente em setores de alta performance, é apenas a expressão mais visível de um sistema que recompensa o excesso — até que ele se torne disfuncional.

Mais do que uma falha de gestão, trata-se de uma lógica estrutural. A substituição rápida de colaboradores que deixam de “performar” não é acidental: é parte do funcionamento. Um ciclo contínuo de uso e descarte, que transforma competência em sobrecarga e lealdade em invisibilidade.

Curiosamente, os profissionais que melhor se adaptam a esse sistema nem sempre são os mais capacitados tecnicamente. Muitas vezes, são os que compreendem as dinâmicas de poder, que estabelecem alianças estratégicas, que sabem parecer ocupados sem se expor ao desgaste. Em outras palavras, sobrevivem não os que entregam mais, mas os que sabem navegar o jogo organizacional.

Essa realidade exige uma reflexão mais profunda sobre os modelos de valorização vigentes. O mérito, isolado da política interna, torna-se insuficiente. A entrega, sem proteção institucional, vira risco. E o engajamento sem limites, embora elogiado, muitas vezes serve apenas para perpetuar uma lógica de exploração sob a aparência de reconhecimento.

No campo clínico, observa-se o reflexo dessas dinâmicas. Profissionais adoecidos não apenas pelo excesso de trabalho, mas pela internalização de uma crença: a de que é preciso ser sempre útil para ter valor. Uma lógica aprendida desde cedo, reforçada por sistemas que premiam a performance e negligenciam o cuidado.

O desafio, portanto, não é apenas individual. É organizacional. Repensar as culturas que confundem produtividade com disponibilidade irrestrita é urgente. Não se trata de abrir mão da excelência, mas de construir ambientes onde o reconhecimento venha acompanhado de sustentação, e onde o sujeito não desapareça atrás do cargo que ocupa.

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Você não é obsessiva.

Fiquei pensando no que você me disse ontem, engraçado porque é uma fala do senso comum, mas muito dita e pouco pensada. 

E então resolvi fazer um certo ajuste na sua fala, ainda mais, porque sendo da área, você não pode mais se dar ao luxo de confundir conceitos, ou validar o senso comum em detrimento da precisão conceitual.

Posso te afirmar que você não é obsessiva, não procrastina. Você é histérica. Clássica.

A neurose obsessiva e a histeria são caminhos distintos dentro da subjetividade humana. A obsessão se manifesta no excesso de controle, na tentativa incessante de ordenar o mundo interno e externo por meio de rituais, repetições e análises intermináveis. O obsessivo teme a perda de controle e, por isso, adia decisões, repassa infinitamente os mesmos pensamentos e se protege na paralisia da dúvida. Seu refúgio é a certeza, sua angústia nasce da possibilidade de errar.

Já o histérico, ao contrário, movimenta-se na incerteza. Ele não se protege da dúvida, mas a amplifica, encena, dramatiza. Enquanto o obsessivo busca uma resposta definitiva, o histérico coloca novas perguntas, seduz a escuta do outro, joga com as possibilidades. Sua dor não vem da inação, mas da constante necessidade de ser reconhecido, de se reinventar, de sustentar a falta que o habita sem jamais preenchê-la completamente.

Há algo curioso: muitos se identificam como obsessivos, pois há um certo prestígio na imagem de alguém meticuloso, disciplinado, atento aos detalhes. Poucos, no entanto, se reconhecem como histéricos. A histeria carrega um estigma – de exagero, de manipulação, de instabilidade. Mas a verdade é que o histérico não se limita a repetir padrões fixos como o obsessivo. Ele provoca rupturas, tensiona o que está posto, é o sujeito do desejo que se desloca, que não aceita a rigidez dos significados.

Se o obsessivo busca controlar o desejo, o histérico se alimenta dele. O obsessivo quer certezas, o obsessivo já sabe quem ele é, mas vai demandar que você o reconheça para preservar suas certezas. O histérico se lança ao vazio, pede uma confirmação de lugar para o outro, tira a minha dúvida de quem eu sou. O histérico está sempre insatisfeito, o obsessivo é da ordem do impossível, da impossibilidade. Nenhum dos dois encontra plena satisfação, mas cada um lida com a angústia de forma distinta.

O problema é que escolhas têm consequências dramáticas, e sustentá-las exige muito. A histeria exige. Converte para o corpo, prefere isso a ter que dar conta do seu desejo. O Obsessivo converte para o pensamento, prefere entrar em um loop infinito do que se a ver com seu desejo. Não há um caminho fácil, mas há, sempre, um caminho possível.

Histeria. A palavra pesa. Causa desconforto. Pouca gente a assume. Mas vamos pensar melhor: a histeria não é sobre indecisão pura e simples, nem sobre preguiça ou falta de controle. É sobre desejo e angústia. Sobre colocar o outro no centro da cena e, ao mesmo tempo, escapar do olhar dele. É a busca por um saber que nunca se completa, que sempre se desloca. A histérica pergunta e pergunta, mas, no fundo, não quer uma resposta definitiva – porque ela mesma é a pergunta.

Já a neurose obsessiva opera de outra forma. O obsessivo quer o controle absoluto. Ele calcula, antecipa, se prende a rituais e repetições. Não age porque quer garantir que tudo estará sob domínio. E enquanto isso, o tempo passa. O desejo fica em suspenso.

Na histeria, não. Há movimento. Há um jogo constante entre se mostrar e se esconder, entre provocar e recuar. A histérica age, mas depois se pergunta: "será que era isso mesmo que eu queria?" E recomeça o ciclo.

Então, volto a dizer: você não é obsessiva, você não procrastina. Você é histérica. E reconhecer isso não é um problema. Pelo contrário, é uma estrutura clinica, como as outras. 

Só precisa saber até que ponto você está no controle do jogo – e não sendo jogada por ele.

Uma escolha, uma sentença.

Minha querida amiga!

Você fez uma escolha ativa, não foi escolhida. 

O problema é que escolhas têm consequências dramáticas e sustentá-las exige muito.

Escolher é um ato de coragem. Muitas vezes, nos vemos em situações em que parece que a vida simplesmente nos empurra para determinados caminhos, mas, no fundo, há uma diferença crucial entre ser levado pelo fluxo e fazer uma escolha ativa. O problema com escolhas ativas é que elas trazem consigo um peso, uma responsabilidade que não pode ser terceirizada. Quando se escolhe, assume-se não apenas a decisão, mas tudo o que vem com ela.

Ser escolhido implica uma certa passividade. Quando se é escolhido, há um deslocamento da responsabilidade para o outro, para as circunstâncias, para a vida. Há uma facilidade em atribuir os desdobramentos da situação a algo externo. Mas quando se escolhe, tudo recai sobre si. Não há escapatória. E é aí que reside a grande dificuldade: sustentar a própria escolha exige força, comprometimento e disposição de lidar com suas consequências dramáticas.

Escolher significa abrir mão de outros caminhos. Todo sim carrega dentro de si incontáveis nãos. Cada escolha traça um destino e fecha portas para outros futuros possíveis. Pode ser angustiante. “E se eu tivesse feito diferente?”, “Será que escolhi certo?”, “O que eu perdi?”. Dúvidas que precisam ser compreendidas e trabalhadas.

Escolhas ativas exigem sustentação. E sustentar escolhas pode ser exaustivo. O mundo não oferece garantias. O caminho escolhido pode trazer desafios inesperados, pode ser mais difícil do que o imaginado, pode trazer momentos de solidão e incerteza. Não há como prever tudo, e essa imprevisibilidade gera medo. 

Mas, é justamente esse comprometimento com as próprias escolhas que se definem a autonomia e a autenticidade.

Sustentar escolhas significa também suportar o olhar do outro. Nem sempre as pessoas entenderão as razões por trás de uma decisão. Algumas vão criticar, outras vão duvidar. Muitas projetam seus próprios receios, inseguranças e crenças sobre quem escolhe. 

O julgamento externo pode ser um peso, mas a única pessoa que pode validar uma escolha é quem a fez. Isso não significa que não se pode reconsiderar, mudar de ideia ou corrigir rotas, mas é essencial não se deixar levar pelo medo da opinião alheia.

E há, ainda, um aspecto emocional importante: o luto pelas escolhas não feitas. Cada decisão tomada significa deixar para trás outras possibilidades. Em alguns casos, esse luto é leve, quase imperceptível. Em outros, profundo. A maturidade emocional está em aceitar que não se pode ter tudo, que a vida é feita de escolhas e que, mais do que tentar manter todas as portas abertas, o desafio é atravessar aquelas que fazem sentido.

Escolher é um ato de liberdade e um ato de responsabilidade. Quem escolhe deve estar preparado para sustentar sua decisão, para encarar as consequências e para encontrar sentido no caminho.

O peso de escolher é grande, mas a sensação de viver uma vida construída com autonomia, e não por inércia, é a maior recompensa que se pode ter.

Sessão

Dizem que o analista não pensa nos seus pacientes depois que a sessão termina.

Eu penso. E muito.

Penso nas palavras ditas e nas que ficaram suspensas no silêncio. No olhar que vacilou, no riso que escondeu a dor, na raiva contida que denuncia algo muito maior. Penso naquilo que se repete sem fim, na luta interna entre construir e destruir, no desejo de pertencimento que nunca encontra pouso.

Escrever me ajuda a organizar essas reflexões. Não para encontrar respostas – porque a análise não é sobre respostas  – mas para dar forma ao que insiste.

Eu me entrego muito ao paciente, sempre preciso de uma descompressão posterior, por isso escrevo. E nesse movimento vou caminhando entre os significantes, até que um significado possa se fazer presente, para mim. Porque é o paciente que chega nos seus próprios.

Segue um trecho: Aqui misturo pacientes, confundo, poetizo, porque o sigilo é algo inegociável

Mas, nesses "Frankenstein" que crio, vou navegando e, de alguma forma, me encontrando. 

Os pacientes leem meus textos, mas não se identificam com um caso específico e, ao mesmo tempo, se reconhecem em vários deles e em nenhum ao mesmo tempo. Então, estou embaralhando muito bem, rs.

=  =  =  =

E a sessão continuava. A analista, com sua calma firme, avisou logo de início: não lhe daria uma pauta. Observava sua irritabilidade transbordando por trás da educação impecável. Internamente, era evidente—uma fúria contida, disfarçada por gestos medidos.

Falou sobre os irmãos, distantes. Estranhos, sem laços reais. E a irmã? Péssima. O relacionamento com a mãe, sempre penoso, culminou em sua morte, que, longe de ser uma tragédia, foi um alívio. Acho que exagero aqui, mas havia um sofrimento aí, não nomeado.

O marido, homem bom, a tratava bem, mas tinha lá suas questões de dependência, às vezes, infantil. 

Na faculdade, era uma aluna excepcional, admirada pelos professores, elogiada com frequência. Mas e daí? Eles seguiam suas vidas, sem impacto real. No fundo, era incrível, mas ninguém parecia querê-la por perto. "Porque não querem sombra", disse a analista. "Por vaidade, pelo inconsciente deles. Isso é do outro."

E a analista continuou dizendo que se fosse outra tipo de pessoa, talvez visse sorte em trabalhar ao lado de alguém assim. Mas para os outros, era uma ameaça. E isso não era sobre ela. O que é do outro, escapa ao seu controle.

Saiu do emprego. Puxaram o tapete, jogaram sujo, e não se importaram. Mas não foi expulsa. Foi ela quem escolheu sair. Corajosa. Saiu de um lugar que a matava. Escolheu viver. Estava atravessando a fantasia. Foi decisão do sujeito (no simbólico), com uma ajudinha do sujeito do inconsciente (no real).

E aqueles que colocou num pedestal? Terra fofa. 

No caminho, adoeceu. Não se vitimizou. Nem por um minuto. "Pera lá", dizia a analista. "Paciência. Paciência histórica." Tudo isso tinha a ver com você, com quem você escolheu ser.

Um ciclo sem fim que se repetia incessantemente. Um roteiro de pertencimento negado. 

Mas o mundo não lhe devia nada. 

A pergunta constante: "Cadê o meu lugar?" E a frustração a posteriori sempre avassaladora.

Vinha de uma família onde era preciso ser "solucionática". Onde as coisas deviam acontecer rápido, serem solucionadas. Quando não aconteciam, críticas, muitas. Mas agora, estava em outra cultura, um novo espaço onde se reconstruía. Isso levava tempo. "É um momento trans", dizia a analista.

Estava em formação. Era um processo, uma travessia. E já fazia o que precisava ser feito. Calma, está tudo bem! Estamos atravessando. Mas não se permitia. Oscilava. Construía, construía… e então destruía tudo. Um ciclo de criação e ruína. Exaustivo. Uma injustiça contra si mesma.

A analista via progressos – muitos. A cada dia, ela se tornava mais forte, mais lúcida, mais dona de si. Mas, no discurso, por vezes, ainda havia aquela menina frágil, que não se reconhecia, que não entendia os reconhecimentos que recebia e as inúmeras sinalizações que a vida lhe dava. Para ela, tudo era normal, tudo era pouco, tudo era esperado mesmo. Tudo. Todo Mundo. Não se via protagonista, geradora do seu sucesso!

Garota excepcional. Dessas que a gente quer ser amiga, e não terapeuta. Dá vontade de estar perto. De conviver. De aprender com ela.

Desse modo, não havia terceirização possível. A resposta que buscava não estava na terapeuta. Porque não era uma terapia. Nunca foi. Era uma análise. Ela havia escolhido a análise. Era a sua análise.

E ... em algum momento ... quando estivesse pronta ... encontraria seu lugar. Melhor: daria a si mesma esse lugar de pertencimento.

Mas que me deu vontade de repetir a famosa frase: "Você não é Todo Mundo!". 

Ah isso deu...

Resiliência Não Se Publica

Resiliência. Uma palavra repetida à exaustão, desgastada pelo uso excessivo. Virou slogan motivacional, enfeite de legenda, uma promessa de superação que chama muita atenção nas redes. Mas a resiliência verdadeira não tem nada de glamourosa. Ela acontece nos silêncios. Nos momentos em que a vida rasga, arranca as certezas e obriga a continuar, sem nenhuma garantia de que algo vá melhorar.

Ela não é um troféu que se exibe, nem um estado de espírito elevado. Ela é um instinto. Acontece quando a vida arranca tudo e você, sem alternativas, continua. Não porque é forte, não porque escolheu ser resiliente, mas porque faz parte da espécie humana lutar pela sobrevivência. Você não conduz, você é levado. Muitos ficam pelo caminho!

A resiliência não é teatral. Não é sobre curtidas, não é acompanhada de trilha sonora inspiradora. Ela mora nos olhos inchados depois da noite mal dormida. No aperto, no desespero que bate antes de levantar da cama. Na coragem de seguir em frente quando nada mais faz sentido.

A resiliência não está na foto bem iluminada de quem superou uma fase difícil e agora ostenta felicidade plena. Ela está no caos, no escuro da madrugada, quando ninguém vê. No cansaço extremo de quem já perdeu demais, mas ainda se arrasta adiante.

O que ninguém diz é que a vida vai te derrubar. Muitas e muitas vezes.

Vai ser quando  você perder alguém sem aviso. Quando a injustiça for tão grande que te sufocar. Quando você perder algo que estruturava sua existência e perceber que ninguém vai te salvar. Vai ser quando o chão sumir, e você entender que o que chamavam de “recomeço” é, na verdade, um longo período de confusão, incerteza e medo.

E a vida vai te testar.

Nessas horas, não há frases motivacionais que deem conta. Só há o dia seguinte. E depois mais um. E outro.

Nessas horas, resiliência não é sobre se levantar com bravura, mas sobre seguir mesmo sem força. Não tem poesia, não tem estética, apenas uma sequência de dias em que você acorda e faz o que dá.

Porque a resiliência não é sobre vencer sempre. É sobre perder, quebrar, cair, duvidar de si mesmo – e, ainda assim, continuar.  

E, pouco a pouco, você muda.

As perdas reconfiguram tudo. O que antes parecia importante se dissolve. O medo de desapontar os outros perde relevância. A busca incessante por reconhecimento se esgota. O que sobra são os poucos e bons amigos - muito poucos, na verdade.

E então, um dia, você olha no espelho e percebe que não é mais o mesmo. Você não quer mais preencher vazios à força. Não quer mais se encaixar no que esperavam de você. Aprende que não há como escapar da falta – porque você é as suas faltas. Elas moldam seus desejos, suas escolhas, sua história.

O desejo nasce da falta, da ausência, e a sua história é feita do que faltou tanto quanto do que sobrou.

O sucesso deixa de ser uma linha de chegada e passa a ser simplesmente existir. Estar ali. Respirando. Sendo.

E no fim das contas, a maior vitória não é nunca ter caído. É ter continuado.

Sem precisar chamar isso de resiliência.

Sem precisar provar nada para ninguém.

Sem precisar publicar nada sobre isso.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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