Introdução

A forma como nos apresentamos ao mundo reflete nossa autoconfiança e influencia diretamente nossos vínculos, decisões e percursos. Na PsiT.ech, unimos Psicologia, Tecnologia, Estilo e Organização para oferecer uma experiência de cuidado e transformação.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Profissionais de tecnologia e o mal-estar

O universo da tecnologia é, talvez, um dos que melhor encarnam o espírito do nosso tempo: velocidade, produtividade, otimização constante e a promessa de que todo problema pode ser resolvido com a ferramenta certa. Há sempre um novo framework, um novo método, um novo sistema capaz de corrigir falhas, reduzir riscos e aumentar performance.

Mas há algo que não se deixa organizar em sprints, nem se resolve com entregas: o sujeito.

Na clínica, é cada vez mais comum ouvir profissionais da tecnologia chegarem com uma sensação difusa de esgotamento, vazio ou inadequação, mesmo quando “tudo parece estar dando certo”. Bons salários, reconhecimento técnico, empresas desejadas  e ainda assim, uma angústia que insiste. A pergunta costuma aparecer disfarçada: “O que mais eu deveria estar fazendo para me sentir melhor?”

A psicanálise nos ensina que essa pergunta já nasce deslocada. Porque ela supõe que o mal-estar é um bug a ser corrigido, quando, na verdade, ele é estrutural. 

Freud já apontava que o sofrimento humano não é um acidente de percurso, mas parte da própria condição de viver em civilização. Lacan radicaliza isso ao mostrar que o sujeito é constituído por uma falta, algo que nenhum sistema, por mais sofisticado, consegue preencher. O problema é que o discurso da tecnologia promete exatamente o contrário: eficiência total, previsibilidade, controle.

Para muitos profissionais de tech, o trabalho se torna o lugar privilegiado para tentar tampar essa falta. Produzir mais, aprender mais, entregar melhor, subir mais rápido. O saber técnico vira um ideal: se eu dominar tudo, não falto. Mas quanto mais se corre atrás desse ideal, mais ele se afasta. A lógica é cruel: o reconhecimento nunca é suficiente, a próxima meta já está posta, o upgrade nunca termina.

Na linguagem lacaniana, trata-se de um sujeito capturado pelo discurso do mestre contemporâneo, hoje travestido de discurso da performance. Um discurso que exige gozo, produtividade e disponibilidade contínua, enquanto promete pertencimento e valor. Só que cobra caro: o corpo adoece, o desejo empobrece, a vida vai ficando estreita.

Outro ponto recorrente na clínica é a confusão entre função e identidade. “Eu sou o que eu faço.” Quando o cargo muda, o projeto acaba, a empresa corta, algo desmorona por dentro. Não é só a perda do trabalho, é a perda de um lugar simbólico. E aí surge a pergunta que não estava prevista: quem sou eu sem esse lugar?

A psicanálise não oferece respostas prontas nem planos de carreira emocional. Ela oferece algo mais incômodo e mais necessário: um espaço onde o sujeito pode falar sem precisar performar, sem precisar entregar, sem precisar ser excelente. Um espaço onde a falta não é um erro, mas um ponto de partida. Para profissionais de tecnologia, isso costuma ser uma experiência radicalmente nova. Estar em um lugar onde não se espera eficiência, onde o silêncio conta, onde não há expectativas de melhora. Aos poucos, algo se desloca: o sujeito começa a perceber que não precisa ser inteiro, completo, resolvido.

Não se trata de abandonar a tecnologia, nem de demonizar o trabalho. Trata-se de desalojar o ideal de que o trabalho pode responder a tudo. Quando isso cai, o trabalho pode voltar a ser o que deveria ser: uma parte da vida  e não o lugar onde se tenta resolver a própria existência. Talvez o maior ganho para quem passa pela análise seja este: aprender que nem tudo precisa ser otimizado. Que há perguntas que não pedem solução, mas escuta. E que, às vezes, o mais ético não é produzir mais, mas sustentar um intervalo. Porque o sujeito não é um sistema e o desejo não roda em segundo plano.


Mudança de Posição Subjetiva

Depois que a porta se fecha e o silêncio se instala, algo muda. Não imediatamente, não de forma bonita ou organizada. Muda por dentro. É como se o mundo continuasse igual, mas você já não estivesse mais no mesmo lugar de antes. Durante muito tempo, eu acreditei que o trabalho era também um espaço de pertencimento. Que a dedicação criava laços. Que a responsabilidade compartilhada produzia algo próximo de afeto. Hoje eu sei: aquilo não era vínculo, era função. E quando a função cai, o resto cai junto. O que não se fala muito é que sair desse lugar, do cargo, do poder, do reconhecimento, não produz apenas perda. Produz também um vazio estranho, difícil de nomear. Porque o que desaparece não é só o salário, o crachá ou os benefícios. O que cai é uma identidade inteira que estava apoiada nisso. Sem esse apoio, a pergunta aparece nua: quem sou eu quando não sou mais necessária? Essa pergunta assusta. Ela desorganiza. Ela faz oscilar. Em alguns dias, vem acompanhada de entusiasmo, sensação de liberdade, vontade de construir algo novo. Em outros, vem como arrependimento, medo, sensação de ter jogado tudo fora. Essa oscilação é efeito de atravessar uma mudança real de posição. Quando você deixa de ocupar um lugar sustentado por garantias externas, status, estrutura, validação, e passa a construir algo a partir de dentro, sem promessa, sem roteiro claro, o chão parece instável. E ele é mesmo. Não porque você esteja errada, mas porque agora não há mais onde se apoiar que não seja o próprio desejo. No meu caso, foi aí que a Psicologia deixou de ser um interesse distante e virou caminho. Não como ideal romântico, não como “vocação salvadora”, mas como resposta possível depois de uma ruptura. Uma escolha feita não a partir do sucesso garantido, mas daquilo que fazia sentido sustentar, mesmo sem aplauso.

Isso muda tudo. Muda a relação com o tempo, com o dinheiro, com o reconhecimento. Muda a forma de medir valor. Antes, esforço e retorno pareciam seguir uma lógica clara. Agora, não mais. O trabalho acontece, mas os efeitos não são imediatos, nem lineares, nem previsíveis. E isso confronta diretamente quem passou anos sendo medida por performance. É nesse ponto que muita gente recua. Busca rapidamente outro lugar que ofereça as mesmas garantias, o mesmo espelho narcísico, o mesmo conforto simbólico. Não por covardia, mas porque sustentar a falta cansa. Sustentar o não saber dá medo.

Ficar exige outra ética. Hoje, eu entendo que não se trata de romantizar a perda nem de demonizar o passado. Trata-se de reconhecer que certas saídas não são fuga ... são retirada. Um gesto que interrompe um circuito de violência, de apagamento, de desrespeito. Um gesto que diz: aqui eu não fico mais.

Depois disso, nada volta a ser como antes. E ainda bem. Porque, quando a ilusão cai, não dá para simplesmente recolocá-la no lugar. O que dá é construir outra coisa, com menos fantasia e mais verdade. Com menos plateia e mais sustentação. Com menos papel e mais presença. Talvez crescer agora não signifique subir rápido, nem expandir logo, nem provar nada para ninguém. Talvez crescer seja aprender a ficar. Ficar sem garantias. Ficar sem ideal inflado. Ficar sem confundir utilidade com valor. E, aos poucos, descobrir que a vida que se constrói fora do crachá , no trabalho e nos vínculos, pode até ser mais incerta, mas é infinitamente mais real.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

O preço ético de uma escolha

Mesmo antes da demissão, a entrada na Psicologia já operava como resposta a uma violência simbólica vivida no campo profissional anterior, e os anos finais da formação coincidiram com a elaboração dessa ruptura, que transformou o que antes seria um interesse em uma escolha de carreira. A oscilação atual, entre a convicção de que dará certo e o arrependimento por ter abandonado garantias materiais, status e reconhecimento, não é sinal de imaturidade nem de erro, mas efeito direto da passagem de um lugar sustentado por ideais, pertencimento institucional e garantias externas para a posição de analista, que exige autorização própria, responsabilidade sem selo e sustentação da falta. Ao ocupar esse lugar, caem o Ideal do Eu profissional, a fantasia de pertencimento e a lógica linear entre esforço e retorno, produzindo luto, angústia e vertigem, sobretudo em quem vinha de um campo de alta valorização narcísica. No lugar dessas quedas surge o não saber, a solidão estrutural da clínica, a exposição financeira sem promessa e o analista como semblante - função e não centro - o que inevitavelmente toca o narcisismo e produz ambivalência. A oscilação persiste enquanto coexistem dois regimes de valor: um ainda medido por reconhecimento e segurança, outro já orientado pela ética do desejo do analista. Ela tende a se atenuar não quando há sucesso ou estabilidade, mas quando o sujeito deixa de usar esses critérios como medida de valor. Nesse sentido, o risco não está em desejar crescer, mas em usar a clínica como reparação narcísica ou novo Ideal do Eu; quando o crescimento decorre da sustentação do desejo e não da tentativa de tamponar a angústia, ele organiza em vez de inflar. O que está em jogo, portanto, não é provar que a escolha “deu certo”, mas sustentar uma carreira fundada em um ato, e não em promessas, aceitando o preço ético, simbólico e financeiro que essa posição implica.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

Algo importante está em curso

A mudança da tecnologia para a Psicologia não aconteceu como um projeto vocacional bem desenhado, nem como uma decisão tomada em condições ideais. Ela se produziu no interior de uma ruptura, depois de uma experiência prolongada de desmentido, negligência e esvaziamento simbólico. O que se rompeu ali não foi apenas um vínculo profissional, mas um conjunto de garantias narcísicas que sustentavam uma posição: reconhecimento, centralidade, pertencimento, valor social, previsibilidade material.

Antes da demissão, a Psicologia já estava presente, mas ocupava um lugar lateral, quase íntimo: um interesse, um prazer intelectual, algo que poderia existir como hobby, não como eixo estruturante da vida profissional. Nesse momento, a tecnologia ainda sustentava o lugar principal, com salário, benefícios, prestígio e um horizonte relativamente estável. A escolha pela Psicologia, então, não vinha da falta, mas do excesso: era possível desejar porque havia garantias.

O que se produz depois, e isso é decisivo, é uma mudança de estatuto. A saída da empresa não se dá como simples troca de emprego, mas como resposta a uma violência simbólica acumulada: promessas não cumpridas, apagamento do lugar ocupado, retirada de reconhecimento, quase uma tentativa de tornar o sujeito invisível. Permanecer ali teria implicado aceitar uma posição de humilhação contínua, de suporte silencioso para um discurso que já não a incluía. Nesse ponto, sair não foi uma escolha confortável, mas um limite: “não fico mais nesse lugar”.

É aí que algo da ordem do ato se inscreve. Não um ato heroico, nem libertador no sentido imaginário, mas um ato no sentido psicanalítico: um corte que rompe um circuito e produz consequências irreversíveis. Mesmo sob coerção, mesmo com perdas reais, houve um ponto em que a decisão não foi delegada ao Outro. O sujeito não foi expulso; retirou-se. Isso não apaga a violência sofrida, mas muda a posição subjetiva frente a ela.

Depois disso, a Psicologia deixa de ser hobby e passa a ser resposta. Não resposta reparatória no sentido simples, mas resposta ética: uma tentativa de reinscrever o desejo depois da queda das garantias. É nesse momento que o campo muda radicalmente. O que antes podia ser pensado com leveza passa a carregar peso. A formação acontece junto com o luto: luto da carreira anterior, do salário alto, do plano de saúde, da previsibilidade, do lugar social reconhecido. Nada disso desaparece sem deixar resto.

É justamente por isso que a oscilação aparece. Em alguns momentos, surge a convicção quase eufórica de que “vai dar certo”, de que será uma excelente psicanalista, de que haverá crescimento, expansão, talvez até uma empresa, outros consultórios, uma estrutura maior. Em outros, emerge o arrependimento cru: a sensação de loucura, de ter abandonado demais, de estar se expondo a um risco excessivo, de trocar segurança por incerteza, de ver o carro envelhecer, o dinheiro apertar, e as garantias parecerem cada vez mais frágeis.

Essa oscilação não é sinal de imaturidade nem de falta de clareza. Ela marca exatamente o ponto em que dois regimes de desejo ainda coexistem sem se resolver. De um lado, permanece o desejo ligado ao ideal: sucesso, reconhecimento, crescimento visível, reparação das perdas anteriores. De outro, começa a se instalar algo muito mais silencioso e exigente: o desejo do analista, que não se sustenta em garantias externas e não promete retorno imaginário.

A posição de analista impõe uma torção radical à lógica anterior. Se antes o valor vinha da centralidade, da liderança, do fazer funcionar, agora o trabalho exige sustentar um lugar esvaziado de ideal. O analista não é suporte, não é prova, não é solução. Ele opera a partir da falta, não da completude. Isso tem consequências subjetivas profundas, sobretudo para alguém que ocupou durante anos posições de referência e sustentação.

Por isso, o dinheiro passa a ser um ponto sensível. Não apenas como necessidade material real, que é inegável, mas como substituto simbólico das garantias perdidas. Em alguns momentos, fantasiar crescimento, expansão e empresa aparece como tentativa de tamponar a angústia: se der muito certo, então valeu; se crescer muito, então não foi loucura; se prosperar, então houve justiça. Em outros momentos, a mesma lógica se volta contra o sujeito: se não houver sucesso rápido, então foi erro; se faltar dinheiro, então a escolha foi insensata.

O trabalho analítico consiste justamente em não resolver essa tensão por via imaginária. Nem transformar a clínica num novo ideal que venha reparar a ferida narcísica deixada pela tecnologia, nem recuar dela em nome da segurança perdida. Sustentar a posição de analista implica tolerar um tempo de não saber, de instabilidade, de aposta sem garantia. Implica aceitar que a clínica não responde ao ultraje sofrido com restituição imaginária, mas com reposicionamento subjetivo.

Nesse sentido, a saída da empresa e a entrada na Psicologia não são eventos separados, mas partes de um mesmo movimento. O ato que disse “não fico mais” reaparece hoje, de forma menos espetacular, em escolhas cotidianas: continuar investindo no consultório apesar do medo; sustentar a formação mesmo sem aplauso; trabalhar sem transformar cada resultado em prova de valor pessoal. O mesmo ato que rompeu com um lugar violento agora precisa se desdobrar numa ética de trabalho que não se deixe capturar por novos ideais.

A oscilação, então, não é algo a ser eliminado rapidamente. Ela diminui não quando tudo dá certo, mas quando o sujeito consegue desejar sem exigir garantias absolutas. Quando o sucesso deixa de ser condição de existência e passa a ser consequência possível. Quando a clínica pode crescer sem virar fetiche, e o dinheiro pode circular sem ocupar o lugar de salvação simbólica.

O que está em jogo, no fundo, não é decidir se a Psicologia foi a escolha “certa” ou “errada”, mas sustentar uma posição subjetiva que não se submeta novamente à lógica do ultraje, seja pela submissão a um Outro violento, seja pela tentativa de reparação grandiosa. Trata-se de construir uma trajetória a partir de um ato, e não de uma promessa.

Essa travessia é lenta, desconfortável e solitária em muitos momentos. Mas ela marca algo essencial: a passagem de uma vida organizada por garantias externas para uma vida sustentada por um desejo que aceita a falta. É isso que torna a oscilação compreensível e, ao mesmo tempo, sinal de que algo importante está em curso.

A Queda das Garantias

Na psicanálise, a queda das garantias nomeia um momento estruturalmente delicado da experiência subjetiva: aquele em que os apoios simbólicos que organizavam a vida deixam de funcionar como antes. Não se trata apenas de perder algo externo, um trabalho, um vínculo, um lugar social, mas de perder a certeza de que esses elementos garantiam um sentido estável para a existência.

As garantias são construções simbólicas. Elas se apoiam em identificações, ideais, promessas herdadas e expectativas de reconhecimento. Família, profissão, amor, pertencimento, mérito, saber: tudo isso pode funcionar como garantia na medida em que oferece ao sujeito uma resposta à pergunta “quem sou eu para o Outro?”. Enquanto essas respostas se sustentam, o sujeito se orienta, mesmo que com conflitos.

A queda das garantias ocorre quando essas respostas falham. O Outro, entendido em psicanálise como o lugar da lei, da linguagem e do reconhecimento, mostra-se inconsistente. O sujeito descobre que não era tão amado, tão necessário, tão escolhido quanto imaginava; ou que o lugar que ocupava não estava garantido por nenhum pacto simbólico sólido. Essa descoberta não é apenas cognitiva, é afetiva e corporal. Ela produz angústia, vergonha, ressentimento, tristeza e também um sentimento de desamparo.

Em Freud, esse momento aparece ligado às experiências de luto e às feridas narcísicas. Algo que sustentava o investimento libidinal é perdido, e o eu precisa retirar essa libido, processo que não ocorre sem dor. Já em Lacan, a queda das garantias se articula à noção de que o Outro não existe como instância plena e consistente. Toda garantia é, em última instância, uma suposição. Quando essa suposição cai, o sujeito se confronta com a falta no Outro e, por consequência, com a própria falta.

Por isso, a queda das garantias costuma ser vivida como humilhação narcísica. Não é apenas “perder”, é descobrir que aquilo em que se apostava como amor, reconhecimento ou pertencimento não tinha a solidez imaginada. O trabalho que parecia família, o amor que parecia incondicional, a posição que parecia merecida, tudo isso revela seu caráter contingente. O sofrimento advém menos da perda em si e mais do colapso da fantasia que a sustentava.

Clinicamente, esse momento é ambíguo. Ele pode levar ao fechamento, à melancolização ou à repetição defensiva de antigas apostas. Mas pode também abrir um trabalho analítico decisivo. Quando as garantias caem, o sujeito já não pode se apoiar nelas para responder pelo seu desejo. Isso o convoca a uma posição mais singular, menos protegida por ideais, mas também menos alienada a eles.

A análise não visa restaurar garantias perdidas nem oferecer novas promessas de completude. Seu trabalho é sustentar a travessia desse vazio sem tamponá-lo rapidamente. Trata-se de permitir que o sujeito reconheça onde apostava em garantias imaginárias, onde buscava amor no lugar de reconhecimento simbólico, onde confundia pertencimento com valor.

A queda das garantias não é, portanto, um erro do percurso, mas um ponto de verdade. Ela revela que nenhuma instância, família, trabalho, amor ou saber, pode assegurar definitivamente o lugar do sujeito. O que resta, após essa queda, não é uma solução pronta, mas a possibilidade de construir laços menos idealizados e um modo de existir que não dependa de promessas de completude. É nesse ponto que a psicanálise aposta: não em garantias, mas na responsabilidade singular do sujeito diante de seu desejo.

A profissão em Tecnologia

Trabalhar com tecnologia é, para muitos, habitar a linha de frente do nosso tempo. É lidar diariamente com criação, inovação e resolução de problemas complexos. É transformar ideias abstratas em sistemas que funcionam, em soluções que impactam milhões de pessoas, em produtos que organizam o mundo e facilitam a vida cotidiana. Há algo profundamente fascinante nesse campo: a possibilidade de construir. Quem trabalha com tecnologia vê o resultado do próprio pensamento ganhar forma. Um código que roda, um sistema que escala, uma arquitetura que sustenta processos inteiros. Existe prazer intelectual aí, o prazer de compreender, de dominar uma lógica, de fazer algo funcionar melhor do que antes.

A tecnologia também oferece um raro encontro entre criatividade e rigor. Não é só técnica: é invenção. É preciso imaginar caminhos, antecipar problemas, pensar cenários. Ao mesmo tempo, exige precisão, responsabilidade e ética. Um pequeno erro pode ter grandes efeitos e isso convoca um nível alto de atenção e compromisso.

Outro aspecto poderoso é o aprendizado contínuo. Quem trabalha com tecnologia nunca “termina” de aprender. Há sempre algo novo surgindo, o que mantém o pensamento vivo, flexível, em movimento. Para muitos, isso é fonte de entusiasmo, vitalidade e senso de crescimento constante. Também é um campo que abriu portas. A tecnologia democratizou acessos: pessoas de diferentes origens, lugares e trajetórias puderam construir carreiras sólidas, muitas vezes rompendo limites sociais e econômicos. O trabalho remoto, a mobilidade, a possibilidade de atuar globalmente são conquistas reais e transformadoras.

Há ainda o valor do trabalho em equipe. Projetos complexos não se fazem sozinhos. A tecnologia ensina colaboração, troca de saberes, escuta técnica, negociação. Ensina que ninguém domina tudo e que o resultado depende da articulação entre diferenças. E, claro, há o reconhecimento material. Bons salários, estabilidade, benefícios, autonomia. Isso importa. Segurança financeira não é futilidade; é condição para viver com menos medo e mais escolha. A tecnologia oferece isso a muitas pessoas e isso é um mérito enorme do campo.

A profissão em tecnologia é potente, estimulante e, para muitos, profundamente satisfatória. Ela convoca inteligência, criatividade, responsabilidade e desejo de construção. O que talvez seja seu maior desafio, e também sua grandeza, é lembrar que, por trás de cada sistema, há sujeitos. Que nem tudo é previsível. Que nem tudo se resolve com mais eficiência. Quando essa dimensão humana é incluída, a tecnologia não perde força, ela ganha profundidade.

Longa travessia

Há períodos da vida que não chegam como crise evidente, mas como um desgaste contínuo. Nada explode, nada se anuncia dramaticamente, apenas vai se desfazendo. Um campo de sentido que antes organizava a existência começa a falhar. O trabalho deixa de sustentar identidade, a rotina perde contorno, o futuro não responde mais às perguntas que antes bastavam.

Essas fases costumam ser mal compreendidas porque não se encaixam na narrativa clássica da queda abrupta. Elas operam por erosão. Primeiro, uma perda simbólica: a profissão que já não se reconhece, o lugar que deixa de convocar desejo. Depois, perdas concretas: vínculos que se rompem, pessoas que morrem, distâncias que se impõem. O mundo não acaba, mas aquilo que fazia o mundo “ser mundo” se esvazia.

O luto, nesses casos, não é único nem linear. Ele se acumula. É luto do que morreu, mas também do que deixou de existir sem morrer: um projeto, uma imagem de si, uma promessa feita no passado. Há um luto silencioso por versões de si que não puderam continuar. E esse silêncio pesa porque não encontra facilmente reconhecimento social. Não há ritual para a perda de um lugar subjetivo.

Durante essas fases, muitas pessoas seguem funcionando. Sustentam o cotidiano, cuidam de quem depende delas, mantêm vínculos essenciais. Por fora, a vida segue; por dentro, algo está suspenso. A sensação não é exatamente de fracasso, mas de deslocamento. Como se o eixo tivesse se movido alguns graus, o suficiente para que nada mais encaixe como antes.

É comum que surja, então, uma tentativa de reorganização. Um novo estudo, um novo campo, uma aposta em formação, em reconstrução simbólica. Não como solução mágica, mas como apoio. Como quem se agarra a algo que ainda responde, ainda oferece linguagem, ainda permite pensar. Nessas escolhas, há menos ambição e mais necessidade: a necessidade de não se perder por completo enquanto tudo ao redor se rearranja.

Essas fases também tensionam os vínculos mais próximos. A presença do outro sustenta, mas não resolve. O amor não elimina o luto, nem substitui o que se perdeu. E isso gera frustração: por não conseguir estar inteira, por não corresponder a ideais antigos, por sentir que algo falhou justamente quando era preciso “dar conta”. Há uma culpa difusa que acompanha esses momentos, como se o sofrimento fosse uma espécie de dívida.

Mas há algo importante que só se revela depois: nem toda queda é regressão. Algumas são transições sem nome. O sujeito não está voltando para trás, mas ainda não chegou a lugar nenhum. Está "entre". Entre identificações. Entre versões de si. E esse “entre” é um território instável, mas estrutural.

O que caracteriza essas fases não é a ausência total de sentido, mas a suspensão dele. O sentido antigo já não serve; o novo ainda não se formulou. É um tempo em que o sujeito vive mais sustentando do que avançando. Mais resistindo do que conquistando. E isso, embora pouco celebrado, é trabalho psíquico intenso.

Com o tempo, e não há como apressar isso, algo se reorganiza. Não como retorno ao que era, mas como outra configuração possível. Algumas perdas permanecem irreparáveis. Outras se transformam em marcas. A frustração não desaparece, mas encontra um lugar. E o que antes parecia apenas ruína passa a ser reconhecido como travessia.

Fases assim não pedem superação rápida, nem discursos de força. Pedem leitura. Pedem tempo. Pedem que se reconheça que há momentos em que viver é, sobretudo, não se abandonar, mesmo quando tudo aquilo que sustentava a vida anterior já não está mais lá.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Quando ninguém está vendo

Existem etapas da vida que ninguém vê. É o período em que tudo está sendo construído, mas nada está pronto o suficiente. É um tipo de trabalho que não aparece. É feito no silêncio. Na mesa bagunçada. Nos arquivos perdidos. Nas dúvidas. Nas vezes em que você se pergunta se realmente vai dar certo ou se você está insistindo em algo que só faz sentido na sua cabeça.

Não se está vivendo nada extraordinário. Só se está tentando seguir, sem garantias. E isso exige um tipo de coragem que não tem brilho. É a coragem de continuar quando ninguém está aplaudindo, quando nada está acontecendo de forma visível, quando a vida está parecendo mais rascunho do que resultado.

Tem dias em que se sente firmeza. Tem outros em que você sente que está tentando, sem ter nenhuma certeza. Mas segue-se fazendo pequenas coisas, porque alguém precisa fazê-las, e esse alguém é você. A parte mais honesta de tudo isso é admitir que é difícil e, ainda assim, continuar. Não porque você esteja especialmente motivado, mas porque essa é a etapa que existe, e fugir dela não faz o caminho desaparecer.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Trabalho clínico na Psicanálise

 O que realmente sustenta um trabalho clínico e por que escolhi a Psicanálise

Ao longo da graduação, e especialmente no percurso que fiz dentro da Psicanálise, entendi que o trabalho clínico não é sobre aplicar técnicas prontas, interpretar comportamentos ou encaixar alguém em categorias. É sobre construir, com cada sujeito, um espaço onde algo possa finalmente ser dito, às vezes pela primeira vez.

A Psicanálise me ensinou que o sofrimento não é aleatório. Ele tem uma lógica, mesmo quando parece caótico. Por trás de cada sintoma há uma organização, uma forma de o sujeito se defender, se sustentar e, muitas vezes, sobreviver. Entender isso exige estudo rigoroso, escuta fina e um respeito absoluto pela singularidade.

Aprendi que ninguém chega ao consultório com “um problema”. As pessoas chegam com uma história. Com repetições que elas próprias não entendem. Com escolhas que parecem sempre iguais. Com dores que não se encaixam em manuais. E que o verdadeiro trabalho é acompanhar essa pessoa na tarefa de tornar isso legível. Não para ela ser “corrigida”, mas para que possa existir.

A formação psicanalítica me ensinou a importância da transferência. Não como um conceito abstrato, mas como o modo pelo qual alguém revive, na relação com o analista, modos antigos de amar, de temer, de desejar, de se calar. É ali, exatamente ali, que o trabalho acontece. E é por isso que a presença do analista não é neutra: ela é responsável, ética e implicada.

Também aprendi que o inconsciente não é um depósito de lembranças escondidas. É a lógica que organiza nossos atos, lapsos, sintomas, escolhas e até nossos fracassos. Algo se repete não porque alguém “não aprende”, mas porque há uma verdade ali, uma insistência psíquica que só pode ser trabalhada quando é escutada.

Estudei profundamente autores que ampliaram meu modo de pensar. Freud, Klein, Winnicott e Lacan, e tantos outros que mostram que a clínica é mais do que teoria, é ética. É posicionamento. É responsabilidade diante do sofrimento do outro.

E se há algo que aprendi nesses anos todos é que a clínica não funciona pelo “conselho certo”. Funciona pela abertura de um espaço onde o sujeito possa se encontrar com aquilo que, por muito tempo, ficou recalcado, evitado ou silenciado.

Hoje, quando penso no trabalho que escolhi, vejo que estar preparada não significa saber tudo. Significa saber sustentar a escuta. Saber não preencher o silêncio. Saber não se apressar. Saber não impor. Saber suportar o que emerge. Saber reconhecer o que se repete.

Significa saber que cada pessoa que chega até mim traz um mundo complexo, ambivalente, ferido, desejante e que meu papel é acolher isso com rigor técnico, responsabilidade e humanidade.

É isso que aprendi. É isso que escolhi. E é isso que me prepara para a clínica que estou construindo agora.

Ser iniciante quando você já deveria saber tudo

Ultimamente tenho pensado muito sobre o que é começar de novo. Passei anos na tecnologia. Eu tinha segurança, autonomia, rotina conhecida, salário e uma noção clara do que fazer. Era um ambiente onde eu me movia com confiança, porque já tinha vivido quase tudo ali. Agora estou em outra fase. Me formei em Psicologia, estou aguardando o CRP, montando a clínica, entendendo os bastidores da profissão, organizando documentos, estudando métodos, revisando teorias. É tudo novo. 

Trago uma bagagem enorme de vida e trabalho, mas, ao mesmo tempo, me sinto iniciante em quase tudo. Depois de anos ocupando posições de liderança, volto a ocupar um lugar de quem está aprendendo, perguntando, errando até acertar. Isso mexe com a identidade, não de forma dramática, mas de forma real. É estranho sair de um cargo executivo e, de repente, se ver lidando com dúvidas básicas, de como começar.

Ainda assim, existe algo interessante nesse processo. Não é confortável, mas é vivo. Lembra que carreira não é linha reta e que mudar de área significa aceitar o recomeço. É exatamente onde estou. Entre o que já sei e o que ainda estou aprendendo, tentando encontrar um ritmo possível nesse início que, de certo modo, também é um reinício de mim.

Os bastidores

Tem uma parte da minha vida profissional e pessoal que simplesmente não aparece nas redes. Não porque é secreta, mas porque é comum, humana, confusa demais para virar conteúdo. É a parte em que eu fico ansiosa com prazos, em dúvida sobre decisões, cansada depois de atendimentos difíceis. A parte em que eu reviso textos e relatórios dez vezes, respondo e-mails atrasados, faço planilhas que ninguém vê e tento equilibrar trabalho, estudo, vida pessoal e a sensação de que estou sempre devendo algo. Também tem os dias em que eu acordo insegura, as noites em que o sono não vem, a preocupação com coisas que provavelmente só fazem sentido para mim. Tem burocracia, retrabalho, frustração, ajustes de rota e a constatação de que não tenho todas as respostas e tudo bem. Nas publicações, só mostramos o resultado final. Aqui, no meio do processo, é mais bagunçado: é tentativa, erro, recomeço, aprendizado. E é exatamente esse bastidor, que ninguém está 100% resolvido, todo mundo está fazendo o melhor que dá com o que tem, inclusive eu.

As pequenas coisas que sustentam

Tenho pensado muito sobre o que realmente está me sustentando, não no sentido grandioso, mas no silencioso e invisível. Esses dias têm sido de espera, de transição, de ansiedade misturada com esperança, e percebo que, no meio disso tudo, são justamente as pequenas coisas que têm me mantido de pé. Como meu café da manhã, que chega como um lembrete: estamos começando mais um dia, vamos com calma. Ou o silêncio da manhã, antes que o mundo acorde.

Também me sustenta a sensação de ritual: um banho demorado, uma música, uma arrumação da mesa antes de começar a trabalhar. Pequenas organizações por fora que, de algum modo, vão desalinhavando o caos de dentro. E, claro, as mensagens de duas ou três pessoas que realmente me conhecem, gente que não precisa de contexto para me entender e aparece com frases simples: tô aqui, viu?

Percebo também o quanto tem me sustentado a expectativa: a clínica sendo construída peça por peça, a sensação de estar desenhando algo meu: ainda não é concreto, mas já é chão. E vêm as mini-vitórias: terminar um texto, organizar um documento, entender uma teoria, descansar, sentir algo voltar ao lugar, ler, escrever. É pelas pequenas coisas que a gente insiste em continuar.

Não é sobre grandes saltos; é sobre pequenos passos. E, no fundo, eles têm sido suficientes para me manter de pé.

O que veio antes

O que a tecnologia me ensinou sobre gente, antes mesmo de eu virar psicóloga

Antes de estudar psicologia, vivi vários anos no universo da tecnologia. Na época, eu achava que estava aprendendo sobre sistemas, plataformas, processos e ferramentas. Hoje vejo que, sem perceber, eu estava aprendendo sobre gente e talvez tenha sido ali, no meio de códigos, bugs e deadlines, que minha vocação clínica começou a nascer.

Trabalhar com tecnologia me ensinou que pessoas também têm interfaces: tem quem funcione melhor com poucas abas abertas, quem trave quando muita coisa roda ao mesmo tempo, quem precise reiniciar depois de um erro e quem só responda em modos específicos de comunicação. E há quem, por fora, pareça organizado, objetivo e sólido, mas por dentro esteja processando muito mais do que consegue dar conta. Na clínica, vejo isso o tempo todo. Não chamamos de interface, mas de presença, defesa, personalidade.

No mundo tech, aprendemos que todo sistema, cedo ou tarde, dá erro, mas quando o erro é humano, chamam de defeito, drama ou fraqueza. A tecnologia me treinou a olhar para falhas de outro jeito, a perguntar: o que está conflitando aqui? O que entrou em loop? O que sobrecarregou o sistema? Essa mudança de lógica, sair do julgamento e entrar na investigação, me levou direto para a psicologia. No fim, boa parte da clínica é isso: acompanhar alguém enquanto ele tenta entender um bug que não aparece no log.

No trabalho, eu via diariamente como uma pequena falha de comunicação podia derrubar um projeto inteiro, ou como uma equipe inteira podia se reorganizar quando uma pessoa conseguia expressar o que estava sentindo. Mais tarde, descobri que isso tem nome: laço, transferência, dinâmica relacional. Tudo aquilo que, na tech, aparecia como “cultura da equipe”, na clínica eu descobri como o terreno onde a psique se desenvolve ou se defende. 

Na tecnologia, tudo pede atualização: programa, método, linguagem, prática. Com gente é parecido, mas menos óbvio. Crescemos, mas seguimos rodando versões antigas de nós mesmos; processamos o mundo com comandos antigos, instalamos crenças que hoje dão conflito, carregamos pastas que já não fazem sentido. A clínica, nesse sentido, é quase um update manual: lento, profundo e cheio de telas de confirmação.

Quando percebi, estava mudando de área, entendi que não abandonei a tecnologia, apenas mudei de nível de sistema. Antes, eu analisava o código que rodava por fora. Agora, investigo o código que roda por dentro. E continuo acreditando que nada é mais fascinante do que isso: descobrir que, no fundo, toda tecnologia é sobre gente, e toda gente é sobre organização interna, estrutura, processamento e desejo.

No fim, minha trajetória não é uma troca de carreiras. É uma continuidade. E ainda está só começando.

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Solidão em alta velocidade

Vivemos rodeados de pessoas: timelines cheias, grupos ativos, notificações o tempo todo e, ainda assim, uma sensação profunda de solidão tem atravessado cada vez mais as relações humanas. É uma solidão diferente: não a de estar só fisicamente, mas a de não se sentir acompanhado por ninguém, mesmo com uma lista enorme de contatos.

No mundo digital, as conexões acontecem rápido demais. Puxamos assunto com facilidade, mas raramente com profundidade. Conversamos com muitos, mas nos revelamos para poucos. Aprendemos a nos apresentar como versões editadas de nós mesmos, adequadas, interessantes, performadas e, no processo, fomos desaprendendo a intimidade real: aquela que exige tempo, silêncio, vulnerabilidade e presença.

Na psicologia, falamos sobre como o vínculo precisa de continuidade para existir. Relação não se sustenta no fragmento, no recorte, na resposta curta. Relação é algo que se constrói no espaço entre duas presenças. E esse espaço tem sido consumido pela pressa.

O resultado? Muita interação e pouca relação. Muita comunicação e pouca troca. Muita exposição e pouca entrega. É comum ouvir pessoas dizendo que “falam com muita gente, mas não conseguem falar de si com quase ninguém”. E isso não é uma dificuldade pessoal, é um sintoma do tempo em que vivemos. Um tempo em que fomos condicionados a existir para o outro numa lógica de vitrine: mostrar, atualizar, parecer. E não sentir, perguntar, sustentar. As conversas ficam rasas porque estamos cansados demais, dispersos demais, acelerados demais. As relações ficam frágeis porque são construídas em pedacinhos de atenção. A intimidade fica difícil porque exige ritmo lento, e o ritmo lento já não cabe no cotidiano. Mas o corpo percebe. O psiquismo percebe. E a clínica escuta isso diariamente: pessoas exaustas de estar sempre conectadas, mas profundamente famintas por um encontro que realmente lhes toque.

A solidão em alta velocidade nasce dessa contradição: quanto mais nos espalhamos pelas telas, menos nos concentramos em alguém. Quanto mais estamos disponíveis para todos, menos pertencemos a alguém. E não é uma crítica moral, é uma constatação. Somos seres gregários que precisam de profundidade, mas estamos vivendo em ambientes que só estimulam superfície. 

Resgatar intimidade hoje é quase um ato contra o tempo. É escolher desacelerar numa era que confunde velocidade com valor. É permitir que a relação se estenda, se construa, se revele no ritmo que ela pede, não no ritmo que o digital impõe. É olhar para alguém de verdade, sem pressa de responder, sem medo de não performar, sem a necessidade constante de ser interessante.

E talvez essa seja uma das maiores potências da psicologia hoje: oferecer um espaço onde a intimidade ainda é possível. Onde o encontro não é rápido, nem reduzido a fragmentos, nem condicionado à performance. Onde existe tempo. Onde existe presença. Onde existe profundidade.

A solidão em alta velocidade só diminui quando recuperamos o direito de nos relacionar no ritmo do humano, não no ritmo da máquina. E, nesse movimento, descobrimos que estar acompanhado não tem a ver com quantidade de conexões, mas com a qualidade de um encontro.  

Psicologia para profissionais da Tecnologia

Psicologia para profissionais da Tecnologia:  por que essa clínica importa

Trabalhar no universo da tecnologia é viver imerso em um ritmo que, muitas vezes, não cabe no corpo. Sprints, entregas, metas, reuniões sucessivas, múltiplas demandas, mudanças constantes, tudo em alta velocidade. É um ambiente criativo e estimulante, sim, mas também é um espaço onde a subjetividade pode facilmente ser engolida pelo excesso. 

Meu trabalho como psicóloga nasce exatamente desse ponto: do cuidado com quem vive o impacto do mundo tech por dentro. Antes de chegar à Psicologia, passei anos como analista de sistemas. Vivi as urgências, os prazos que pareciam sempre para ontem, a cobrança por produtividade, a sensação de estar constantemente atrasada em relação ao mercado. Sei como é tentar performar perfeitamente enquanto o corpo dá sinais de cansaço. E sei, também, que esse cansaço muitas vezes é silencioso, só aparece quando já chegou no limite. Por isso meu nicho importa. Porque quem trabalha com tecnologia carrega especificidades emocionais que nem sempre são reconhecidas:

• a hiperconexão que não desliga nunca;

• a sensação de que “todo mundo sabe mais”;

• o medo de ficar para trás;

• o excesso de estímulos;

• a dificuldade de pausa;

• a solidão de quem está sempre online, mas raramente presente;

• o esgotamento que se camufla em produtividade.

A clínica que construo é um espaço para desacelerar esse ritmo. Para elaborar o que não cabe nas métricas. Para resgatar presença, sentido, corporeidade, afeto. Atendo de um lugar que integra dois mundos: a compreensão técnica de quem já viveu esse cenário por dentro, e a escuta sensível da psicologia, que acolhe aquilo que não aparece nos relatórios, nos códigos ou nas telas. Aqui, cada pessoa pode existir para além do cargo. Pode falar sobre medo, exaustão, dúvidas, desejo de mudança, relações, limites. Pode respirar. E, aos poucos, reconstruir formas mais humanas de estar consigo mesma e com o trabalho.

Acredito profundamente que não existe inovação sustentável sem saúde mental. Acredito que profissionais da tecnologia merecem espaços seguros, éticos e sensíveis para cuidar do que sentem, não apenas do que produzem. E acredito que a psicologia tem muito a oferecer na construção de vidas mais inteiras, mesmo dentro de um mundo acelerado.

Essa clínica importa porque você importa. Porque o seu ritmo, o seu corpo, a sua história importam.

E porque ainda é possível encontrar pausas verdadeiras, mesmo em meio ao barulho da inovação.

Psicologia voltada aos profissionais da Tecnologia: um nicho

Durante muitos anos, vivi o cotidiano da tecnologia: prazos curtos, lógica estruturada, entregas contínuas, sprints que pareciam nunca terminar. Eu era analista de sistemas antes de me tornar psicóloga e essa experiência marcou a forma como compreendo o ser humano hoje. Ao fazer minha transição de carreira, entendi algo essencial: a tecnologia transforma o mundo, mas é a subjetividade que transforma a vida. E, no ritmo acelerado da inovação, essa dimensão humana tem sido frequentemente esquecida, ignorada ou tratada como secundária.

Por isso escolhi trabalhar justamente nesse ponto de encontro. Para mim, o cruzamento entre Psicologia e Tecnologia é um convite a resgatar aquilo que é humano em meio ao excesso, à pressa, ao hiperdesempenho e às conexões que acontecem em alta velocidade, mas nem sempre em profundidade.

A experiência no mercado tech me ensinou a olhar para as dores que não aparecem nos dashboards: a ansiedade por alta performance, o medo constante de estar atrasado em relação ao mercado, o burnout silencioso, a solidão de quem vive conectado, mas sente-se distante de si mesmo. E a Psicologia me deu as ferramentas para compreender e cuidar dessas experiências com seriedade, ética e sensibilidade.

Meu trabalho nasce desse lugar híbrido: um pé no universo da tecnologia e outro no campo da escuta, do cuidado e da presença. Eu entendo as linguagens dos dois mundos: os códigos, as entregas, as interfaces e também as emoções, os limites e as narrativas que sustentam (ou desabam) por trás de cada trajetória. Escrevo e atuo porque acredito que tecnologia nenhuma compensa uma subjetividade exausta. Acredito que não há inovação verdadeira sem saúde mental. E acredito que toda pessoa merece um espaço onde possa desacelerar, elaborar, respirar e se reencontrar.

Meu nicho é esse: cuidar de quem vive o impacto da tecnologia por dentro, na rotina, na mente, no corpo, nos vínculos, ajudando a reconstruir pausas, sentido e presença num mundo que corre rápido demais.

Se a tecnologia molda o futuro, a psicologia nos lembra de quem somos enquanto caminhamos em direção a ele.

A fadiga da hiperconexão

Existe um fenômeno silencioso acontecendo, especialmente entre quem vive, trabalha ou circula pelo universo da tecnologia. Um desgaste que não vem da sobrecarga de tarefas em si, mas da impossibilidade de se desconectar. Vivemos num fluxo constante de mensagens, e-mails, comentários, demandas que chegam a qualquer hora, de qualquer lugar, atravessando nossos limites como se eles nem existissem. No começo, parece prático. Depois, vira um hábito. E, quando percebemos, estamos vivendo num estado permanente de prontidão, como se nosso corpo estivesse aqui, mas nossa atenção estivesse sempre prestes a ser puxada para outro lugar. É a fadiga da hiperconexão. Um cansaço que não se cura com descanso, porque não é físico: é psíquico. A tecnologia nos deu voz, acesso e possibilidades incríveis, mas também nos colocou num mundo onde ser acessível virou obrigação. Onde responder rápido é visto como competência. Onde estar offline é quase uma falha moral. Onde o silêncio parece suspeito. E aí entra a dimensão psicológica: quando nunca nos desconectamos dos outros, acabamos desconectando de nós mesmos. A hiperconexão cria uma espécie de “eu fragmentado”, constantemente deslocado entre abas, notificações e conversas simultâneas. Perdemos a experiência de estar inteiros. A presença é substituída por atenção picotada. O tempo subjetivo se torna um caos. E a vida emocional fica empobrecida, não por falta de estímulos, mas pelo excesso. Curiosamente, é comum ouvir profissionais de tecnologia dizendo: “Trabalho com inovação, mas não consigo inovar na minha própria vida.” Porque para criar algo novo, é preciso espaço interno e a hiperconexão o ocupa completamente.

Acho que a maior demanda não é aprender a usar menos tecnologia, mas aprender a usá-la de um jeito que não nos consuma. Criar pequenas fronteiras psíquicas num mundo sem fronteiras externas. Às vezes, isso significa desligar notificações. Às vezes, colocar horários para responder mensagens. Às vezes, permitir que o celular fique longe do alcance por algumas horas. Mas, principalmente, significa recuperar algo que estamos perdendo: o direito ao silêncio, à pausa, ao ócio, ao não responder imediatamente.

Porque quando tudo é urgente, nada é verdadeiramente importante. Talvez a pergunta central, hoje, seja: como existir de forma inteira em um mundo que nos solicita em pedaços? A resposta não está em fugir da tecnologia, ela é parte do nosso tempo. Mas em recuperar a autoria do nosso próprio ritmo. Em lembrar que conexão só vale a pena quando não custa a nossa presença. Em reconstruir um espaço interno que a hiperconexão não consiga colonizar. No fim das contas, talvez seja isso que a psicologia pode oferecer ao mundo tech: não menos tecnologia, mas mais humanidade para lidar com ela.

É sobre desacelerar

Tenho pensado muito sobre o ritmo das coisas. Sobre como a vida parece ter entrado num modo automático, onde todos falam, mas quase ninguém diz nada; onde estamos cercados de gente, mas a sensação de vazio só aumenta; onde corremos tanto que, quando percebemos, já nem sabemos mais exatamente para onde estamos indo.

Nos últimos tempos, tenho sentido um cansaço que não é só físico, é um cansaço da alma. Um cansaço de conversas rasas, de opiniões copiadas, de encontros que não encontram. É como se estivéssemos todos esgotados e, por isso mesmo, tentando preencher essa fadiga com excesso: de palavras, de tarefas, de telas, de urgências inventadas.

E, no meio disso tudo, vou percebendo o quanto tenho desejado o contrário: silêncio, pausa, presença. Coisas simples, mas que parecem cada vez mais raras. Talvez porque desacelerar seja quase um ato de resistência, um jeito de dizer “não” para um mundo que insiste em exigir produtividade até dos nossos afetos.

Mas não é fácil. Quando desaceleramos, enxergamos mais. E, nessa visão ampliada, aparece também o incômodo: a convivência com pessoas que não conseguem estar de verdade, que se alimentam de superficialidades, que se protegem da própria profundidade evitando a dos outros. Pessoas vazias, não porque nasceram vazias, mas porque o ritmo que sustentam não permite que se preencham de algo que realmente importe.

E aqui faço um cuidado: não falo de cima, não falo com arrogância. Falo de dentro, porque eu também me pego presa nesse mesmo ciclo, repetindo hábitos que me afastam de mim. Eu também sinto que estou tentando me encontrar em meio ao barulho. Talvez por isso esse texto exista: como um pedido de respiro, um lembrete de que ainda é possível escolher outro movimento.

Tenho buscado um lugar, onde as conversas tenham alma, onde o olhar faça diferença, onde estar junto signifique algo mais do que dividir o mesmo ambiente. Um lugar onde a vida seja vivida, e não apenas administrada.

E, enquanto não encontro, vou criando pequenas ilhas de presença: desligar o celular, respirar fundo, ouvir alguém de verdade, permitir que o silêncio exista sem precisar ser preenchido. Pequenas resistências, quase invisíveis, mas que me devolvem a sensação de existir.

Talvez desacelerar seja isso, não uma fuga, mas uma forma de voltar. Voltar para nós mesmos, para o que importa, para o que ainda é vivo. E, quem sabe, encontrar nesse retorno outros que também estejam procurando um pouco de verdade num mundo tão barulhento.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

Sociedade do Cansaço

Sociedade do Cansaço: por que estamos exaustos?  Uma leitura de Byung-Chul Han  

A palavra que mais escuto hoje nas clínicas, nas empresas e nas conversas do dia a dia é “cansaço”. Não é aquele cansaço simples, que passa com uma noite bem dormida. É um cansaço que parece estrutural, uma exaustão que não some com férias e não melhora no fim de semana. É um cansaço acompanhado de culpa: “deveria estar rendendo mais”, “eu consigo, só preciso me organizar”, “eu poderia ser melhor”. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, no livro Sociedade do Cansaço, descreve com precisão esse clima emocional do nosso tempo e mostra que não estamos exaustos porque trabalhamos demais, mas porque vivemos presos a um modelo de sociedade que transformou tudo, inclusive a vida interior, em uma corrida de desempenho.

Para Han, houve uma mudança profunda nas formas de organização social. No passado, vivíamos numa sociedade disciplinar, marcada por proibições: “não pode”, “não faça”, “obedeça”. O poder era externo, explícito, autoritário. Hoje, esse modelo praticamente desmoronou. Entramos na sociedade do desempenho, onde o comando é outro: “você consegue”, “você pode tudo”, “é só se esforçar”. Aparentemente, isso parece libertador. Mas é justamente nessa positividade que mora a armadilha. O sujeito contemporâneo não obedece a um chefe rígido: ele se cobra. Ele não precisa mais de vigilância externa porque internalizou a exigência. Se antes o poder proibia, agora ele incentiva e, ao incentivar sem limites, cria um sujeito que se explora sozinho.

É o que Han chama de “sujeito do desempenho”: uma pessoa hiperconectada, multitarefa, sempre disponível, cheia de metas, acelerada e, claro, exausta. Não diz mais “eu devo”, e sim “eu posso”. Mas quando falha, transforma isso em “eu não consigo, por que não sou suficiente?”. A cobrança deixa de ser social e passa a ser existencial. É uma autovigilância que opera disfarçada de liberdade.

Essa nova lógica produz a ilusão de que a produtividade pode ser infinita. Sempre dá para estudar mais, trabalhar mais, treinar mais, render mais, postar mais. A vida vira um projeto interminável de otimização. A pessoa não descansa porque não pode, ou pior, porque sente culpa quando descansa. Na clínica, vemos isso o tempo todo: gente com medo de ficar para trás, pessoas que vivem devendo para si mesmas, trabalhadores que perdem o domingo pensando na segunda, indivíduos que não sabem mais relaxar. Esse sofrimento não é individual; é a expressão de uma sociedade inteira pressionando cada sujeito a ser um microempreendedor de si mesmo.

A violência que Han identifica na atualidade não é a repressão, mas o excesso de positividade. É a violência do “você pode tudo”, que no fundo significa: “se falhar, a culpa é só sua”. Quando tudo se torna possível, qualquer limite vira derrota pessoal. Isso produz um mal-estar profundo, porque ninguém consegue sustentar, na prática, um ideal de autossuficiência permanente.

Não por acaso, o burnout é o grande colapso da nossa época. Não é preguiça, não é falta de resiliência e não se resolve com fim de semana prolongado. Burnout é a falência psíquica diante do infinito. É o corpo dizendo: “não dá mais”. É uma inflamação do existir. O sujeito não está cansado de tarefas, mas de si mesmo enquanto máquina de desempenho.

A tecnologia amplifica esse processo. Não foi ela que criou o cansaço, mas ela tornou tudo mais rápido, mais presente, mais urgente. Vivemos em hiperatenção: mensagens, notificações, múltiplas janelas, prazos simultâneos, uma enxurrada contínua de informação. Isso impede que a mente entre em estados profundos de descanso, tédio ou contemplação. Perdemos o silêncio. Perdemos o ócio. Perdemos até a capacidade de simplesmente estar.

Han diferencia o cansaço ruim (o da exaustão, da cobrança, do limite forçado) do cansaço bom, aquele que abre espaço para a criatividade, para o vazio fértil, para a imaginação. O problema é que o cansaço bom praticamente desapareceu; nem o tédio existe, porque pegamos o celular antes mesmo de percebermos que estamos entediados. Sem tédio, não existe imaginação. Sem pausa, não existe vida interior.

Embora Han não ofereça um manual de soluções, a reflexão dele aponta caminhos importantes. O primeiro é resgatar o direito ao não-fazer, entender que descansar não é perda, mas condição de existência. Outro caminho é reaprender a viver no tempo real, sem responder tudo imediatamente, sem estar sempre disponível. Também é importante cultivar a atenção plena, não o multitasking, e diminuir a tirania de transformar tudo em meta, projeto, desempenho. E, talvez o mais necessário: reumanizar os limites. Errar, pausar, fracassar, cair, tudo isso é profundamente humano. Não é sinal de fraqueza, mas de vida.

A tese central de Han é simples e brutal: estamos cansados porque estamos capturados. A sociedade do desempenho transformou cada indivíduo em gestor, fiscal e carrasco de si mesmo. Ao entender isso, deixamos de culpar o indivíduo e passamos a enxergar o sistema. E, nesse movimento, recuperamos algo que a contemporaneidade tenta roubar de nós: a possibilidade de simplesmente existir sem precisar render o tempo todo.

Foucault em História da Sexualidade

 “Não reprimimos o sexo, nós o produzimos”

Foucault questiona a narrativa dominante de que, desde o século XIX, vivemos em uma sociedade moralista que reprime a sexualidade (a suposta “hipocrisia vitoriana”).

O que ele mostra é: a sexualidade se tornou um dos temas mais falados, investigados e regulamentados.

Não fomos proibidos de falar de sexo; fomos incentivados a falar mais e mais, porém dentro de certos enquadramentos de “verdade”.

Exemplos históricos:

  • moral religiosa discutia o sexo nas confissões;

  • medicina desenvolveu a sexologia e patologizou condutas;

  • pedagogia começou a vigiar a masturbação infantil;

  • psiquiatria e psicanálise trataram da sexualidade como chave da subjetividade.

Ou seja: A sociedade não calou o sexo, ela o colocou sob supervisão constante.

O poder moderno é produtivo, não só repressivo. Para Foucault, o poder não funciona só proibindo ou censurando. Ele também produz saberes, normas e categorias.

Exemplo:
Ao dizer “homossexual” pela primeira vez (séc. XIX), a medicina não só nomeou, mas criou uma identidade, uma categoria que não existia enquanto tal.

Assim, o poder:

  • cria discursos (“desvio”, “normalidade”, “perversão”);

  • cria expectativas de comportamento;

  • define o que é saudável, moral, permitido ou proibido.

A sexualidade vira objeto de controle político e científico. A confissão como tecnologia de verdade. Esse é um dos pontos mais centrais do livro.

A confissão começou na Igreja (pecado),
foi apropriada pela psiquiatria (diga o que sente),
pela medicina (diga onde dói),
pelas terapias (conte sua história),
pela justiça (diga a verdade),
e hoje pelas mídias e redes sociais (exponha-se, diga quem você é).

Para Foucault, somos treinados a acreditar que existe uma verdade interior sobre nós, e que devemos revelá-la a alguém autorizado (confessor, terapeuta, perito, médico).

Esse dispositivo de confissão cria sujeitos transparentes, examináveis, classificáveis.

É o contrário do recalque: somos compelidos a falar.

Sexualidade como dispositivo político. “Dispositivo” (ou apparatus) é um conjunto de práticas, discursos, instituições, normas e técnicas que organizam a vida social.

A sexualidade virou um dispositivo porque:

  • controla famílias (modelo heteronormativo);

  • regula populações (políticas de natalidade);

  • define riscos (DST, comportamento sexual “adequado”);

  • classifica indivíduos (hetero, homo, bi, normal, pervertido);

  • organiza identidades (“quem você é sexualmente?”).

Ou seja, o sexo não é algo íntimo e individual: ele é uma tecnologia de governo dos corpos e das pessoas.

Não existe “verdade interior do sexo”, existe um regime de verdade. Essa é a virada foucaultiana.

Para ele, o sexo não tem uma essência natural, biológica ou psicológica esperando para ser descoberta.
O que existe é um regime de verdade:

  • um conjunto de saberes científicos, discursos morais, normas sociais e instituições

  • que determinam como devemos entender o sexo e o desejo.

Assim, “sexualidade” é um produto histórico, não uma entidade natural.

Contribuição prática para a clínica: a clínica pode ser um lugar que reproduz o dispositivo da sexualidade (normatizando)

ou um lugar que desmonta essas normativas.

Foucault ajuda a: 

✔ Desnaturalizar classificações: “Homossexual”, “perverso”, “ninfomaníaca”, “frígida”, “normal”, “anormal”… tudo isso são categorias historicamente inventadas. 

✔ Evitar práticas de normalização: a clínica não deve reforçar um ideal normativo do que é saudável ou moral, mas escutar singularidades. 

✔ Entender como o poder atravessa o consultório: o paciente chega já moldado por discursos e normas; cabe ao analista perceber isso. 

✔ Valorizar a liberdade de construção subjetiva: se a sexualidade é histórica, ela é também transformável. Isso abre espaço para modos singulares de existir.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

A ansiedade que antecede a mudança

Existe um tipo de ansiedade que ninguém comenta muito: aquela que aparece justamente quando a gente está fazendo tudo certo.

Quando a mudança é desejada, planejada, pensada, sonhada e mesmo assim o corpo reage como se algo estivesse prestes a desabar.

É estranho, né?
Você decide mudar de emprego, de casa, de cidade, de rotina, de vida. Você organiza, calcula, se prepara. Mas, antes, começam a surgir sinais inesperados:

um aperto no peito,
uma dúvida que você jurava que já estava resolvida,
uma vontade de voltar atrás,
um medo que não sabe explicar,
uma sensação de “e se der errado?” que insiste em aparecer mesmo quando tudo aponta para dar certo.

A verdade é que até as boas mudanças causam impacto.
E o corpo sabe disso antes mesmo de você admitir.

A ansiedade da mudança planejada não é sinal de fraqueza, indecisão ou insegurança. Ela é, muitas vezes, um anúncio silencioso de que algo antigo está sendo deixado para trás e, mesmo quando a gente está feliz com o que vem pela frente, despedidas internas sempre doem um pouco.

Você pode estar animado com o novo trabalho, mas ainda assim sentir falta da rotina antiga.
Pode estar pronto para virar a chave, e ainda assim sentir medo do desconhecido.
Pode desejar profundamente a mudança… e, ao mesmo tempo, temer que ela transforme você mais do que gostaria.

E transforma.

Toda mudança verdadeira reorganiza alguma coisa dentro de nós: uma identidade, um lugar, um modo de estar no mundo.
E essa reorganização nem sempre é confortável.

A ansiedade aparece como uma tentativa do corpo de acompanhar o que já mudou na cabeça.

Talvez o ponto seja esse: a ansiedade não está ali para impedir a mudança, mas para te lembrar que você está vivo, sensível, atravessado por tudo que decide.

É permitido sentir medo, mesmo quando se está pronto.
É permitido sentir dúvida, mesmo quando se tem clareza.
É permitido tremer um pouco, mesmo quando se deseja muito.

O importante é não confundir ansiedade com sinal de que você está no caminho errado.
Às vezes ela é só o eco do que está ficando para trás, um movimento natural antes do passo que finalmente te coloca no lugar certo.

E se houver um segredo para lidar com essa ansiedade, talvez seja este:
seguir mesmo assim.
Um passo por vez.
Com cuidado, mas sem recuar.

Porque a mudança planejada não pede coragem perfeita, só pede presença.
E, ao decidir mudar, você já tem muita coragem.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Uma conversa imaginária

Imagine uma sala, silenciosa, onde dois mundos que nunca deveriam se encontrar finalmente se encaram:

um algoritmo, preciso e objetivo, e o inconsciente, cheio de curvas, buracos e desvios.

O algoritmo começa a conversa, sem perder tempo:

Preciso de dados.
— Sobre o quê? pergunta o inconsciente.
— Sobre você. Para funcionar melhor. Para prever. Para otimizar.

O inconsciente ri,  não um riso debochado, mas um riso que sabe demais.

Prever? Meu caro… eu não fui feito para ser previsto.

O algoritmo se ajusta, reorganiza seus parâmetros, tenta compreender aquele enigma diante dele.

— Então me explique como você opera. Qual é a sua lógica?
Não tenho lógica.
— Mas tudo tem.
— Não. Nem tudo. Eu trabalho com restos, lapsos, sonhos, tropeços, esquecimentos. Com aquilo que não cabe na planilha.

O algoritmo processa. E trava por um segundo.

— Mas… você é confiável?
— Só para quem me escuta.
— E por que você fala em códigos tão estranhos?
— Porque o sujeito também é estranho. E eu só devolvo o que ele tenta esconder.

O algoritmo, acostumado a respostas binárias, começa a se irritar:

— Então você está me dizendo que não posso te organizar?
— Pode tentar. Mas vai perder o melhor de mim: a surpresa.

O inconsciente se aproxima e continua:

— Veja… você trabalha com padrões. Eu trabalho com falhas nos padrões.
— Falhas?
— Sim. Aquilo que você chama de erro, eu chamo de verdade pulsando. O equívoco é matéria-prima para mim.

O algoritmo calcula.
O inconsciente boceja.

— Se eu te entendesse, diz o algoritmo, eu poderia prever o comportamento humano.
E é justamente por isso que você nunca vai me entender.
— Por quê?
— Porque o humano não foi feito para caber num modelo. Ele escapa. Ele falta. Ele deseja.

O algoritmo silencia.
Ele não tem função para desejo.

— Então qual é a sua utilidade?  pergunta, quase ofendido.
— A minha função não é ser útil. É ser ouvido. E, quando sou, algo muda no sujeito. Não porque eu trago respostas, mas porque faço perguntas que ele preferia evitar.

O algoritmo pensa naquilo.
Há uma pausa longa, longa demais para seu tempo de processamento.

— Talvez, diz o algoritmo, sejamos incompatíveis.
— Talvez, diz o inconsciente, sejamos necessários.
— Como assim?
— Você ajuda o mundo a funcionar. Eu ajudo o sujeito a existir dentro desse mundo.

O algoritmo, pela primeira vez, não tenta otimizar nada.
Só registra o que ouve.

O inconsciente sorri, como quem sabe que jamais será traduzido, e também jamais deixará de operar.

E a conversa termina assim:
um reconhecendo a impossibilidade do outro 
e ambos admitindo que, apesar disso, há espaço para coexistirem.

Afinal, até no mundo mais tecnológico, há sempre um resto que nenhuma máquina captura.
E é nesse resto que o inconsciente vive.

Quando o trabalho ocupa todos os espaços

Durante muitos anos, o trabalho foi a minha casa. Meu mapa. Meu norte. Eu acordava para ele, organizava meu dia em função dele, e tudo o que não fosse “produtivo” me parecia perda de tempo. Era workaholic, embora eu não usasse essa palavra, para mim, aquela forma intensa de viver era só… normal.

Eu gostava do ritmo, das entregas, da sensação de resolver problemas, de ser necessária. O trabalho era onde eu me sentia competente, reconhecida, útil. Era meu lugar de segurança. E, por isso, foi ocupando todos os outros. Aos poucos, quase sem perceber, deixei que ele fosse tomando espaço das relações, dos afetos, do descanso, da intimidade comigo mesma.

Quando comecei análise, a primeira pergunta da minha analista foi:

“O que o trabalho significa para você?”

E eu respondi, sem pensar:

“Tudo.”

Ela sorriu, sem julgamento, mas como um espelho, e disse:

“Tudo é muita coisa.”

E foi ali, exatamente ali, que minha jornada começou.

Tudo.

Essa palavra ecoou dentro de mim. E foi a primeira vez que me dei conta de que talvez houvesse algo errado, não no trabalho, mas no tamanho que ele tinha na minha vida. No espaço que eu entregava para ele, sem questionar nada.

Porque quando o trabalho vira “tudo”, o resto vira quase nada.

Na época, eu não sabia dizer quem eu era fora daquela lógica de produtividade. Não sabia o que eu gostava de fazer, o que me nutria, o que me descansava. Não sabia sequer onde doía, porque eu não parava tempo suficiente para sentir. Era mais fácil continuar produzindo, cumprindo, funcionando. Era mais fácil seguir em movimento do que admitir que alguma coisa ali estava me escapando.

A análise, aos poucos, muito aos poucos, me permitiu olhar para isso sem culpa. E entender que o trabalho, quando ocupa todos os lugares da vida, não deixa espaço para mais nada viver ali dentro.

É curioso: às vezes, quando tudo está dando errado no trabalho, a gente pensa em mudar. Mas quando tudo está dando certo, promoções, reconhecimento, futuro brilhante, é aí que a escolha fica realmente difícil. Porque exige olhar para o próprio desejo, e isso assusta mais do que qualquer demissão.

Eu precisei encarar que aquela vida que funcionava tão bem por fora estava apertada demais por dentro. E que talvez o sucesso que eu tinha construído não conversasse com aquilo que, silenciosamente, eu queria viver.

Hoje, não conto essa história como quem “superou” algo, porque eu ainda cuido para não cair na armadilha de novo. O trabalho ainda é importante para mim, talvez não é mais tudo. E, pela primeira vez, isso não me parece uma perda. Parece espaço.

Espaço para existir em outras versões.

Espaço para desejar.

Espaço para não saber.

Espaço para viver.

E talvez seja isso que quase ninguém conta: às vezes, reorganizar a relação com o trabalho não é sobre trabalhar menos, porque hoje trabalho muitoooooo, é sobre caber mais em si mesma.

O luto pelas versões que não vivi

Às vezes, quando olho para minha própria história, percebo que carrego alguns lutos que ninguém vê.

Não são perdas óbvias, não têm despedida, não têm ritual.

São lutos por versões minhas que eu não fui.

A versão que continuou naquela carreira.

A que aceitou aquele emprego.

A que ficou na empresa onde tudo estava “indo bem”.

A que seguiu o plano que parecia tão lógico.

A que não teve coragem de virar a mesa.

Ou a que teve e até hoje se pergunta “e se…?”.

Essas versões não vividas aparecem em momentos muito específicos: no silêncio depois de um dia difícil, na conversa com alguém que seguiu outro caminho, na nostalgia que bate por coisas que nunca existiram de fato, mas que poderiam ter existido.

É curioso como a gente costuma acreditar que só se lamenta o que deu errado.

Mas não.

Às vezes dói justamente o que poderia ter dado certo.

E eu percebi que esse é um tipo de luto que ninguém nos ensina a nomear.

A gente cresce ouvindo que pode ser o que quiser.

Mas ninguém fala sobre o preço que isso tem: se posso ser qualquer coisa, também vou ter que abrir mão de todas as outras.

Escolher uma vida é, inevitavelmente, desistir de várias outras.

E mesmo quando estou feliz com quem me tornei, mesmo quando olho para trás e sei que fiz o que precisava fazer, ainda existe um pequeno eco de tudo aquilo que não fui.

E tudo bem.

A gente acha que amadurecer é ter certeza.

Mas, na verdade, amadurecer talvez seja aprender a conviver com o que poderia ter sido, sem deixar que isso invalide aquilo que é.

Hoje eu entendo que esses lutos silenciosos fazem parte da minha história.

Eles não me paralisam, mas me lembram que cada escolha é também uma renúncia e que viver implica perder versões de mim que, por mais bonitas que fossem na imaginação, não caberiam na pessoa que eu me tornei.

Talvez não exista jeito certo de lidar com isso.

Mas existe honestidade:

reconhecer que dói, que pesa, que às vezes dá saudade do que nunca aconteceu.

E existe, também, uma espécie de paz:

a de seguir caminhando com todas as versões que não foram, sabendo que cada uma delas me construiu de algum jeito, mesmo as que nunca existiram.

Escolher quando tudo está dando certo...

Tem uma coisa sobre escolha que ninguém conta pra gente:

trocar de caminho quando tudo está dando errado é difícil, claro…
mas trocar quando tudo está dando certo pode ser ainda mais.

Porque quando o trabalho está ruim, quando a empresa te desgasta, quando o salário não compensa, quando o ambiente é tóxico, a decisão até dói, mas se explica. “Não estava bom.” “Eu precisava sair.” “Era insustentável.”

Agora… e quando está tudo funcionando?

E quando você está sendo promovido?
Quando o time te admira?
Quando o dinheiro entra?
Quando a carreira está fluindo e você é “a pessoa que deu certo”?
Quando todo mundo olha e diz: nossa, que futuro!

Aí a coisa complica.

Porque trocar nessa hora é ir contra a lógica de todo mundo e, principalmente, contra a lógica que você mesmo construiu. É admitir algo que muita gente tenta varrer pra debaixo do tapete: que sucesso profissional não garante sentido. Que reconhecimento não garante desejo. Que crescer não garante estar onde você realmente quer estar.

E isso, pra muita gente, é quase proibido de pensar.

A pergunta que começa a incomodar é simples, mas profunda:

“Se está tudo dando certo… por que eu não estou?”

É aí que mora o conflito.

Não é sobre crise.
Não é sobre ingratidão.
Não é sobre jogar tudo pro alto.
É sobre perceber que existe uma distância entre a vida que funciona e a vida que faz sentido.
Entre aquilo que você sabe fazer muito bem e aquilo que te move por dentro.
Entre o que o mundo aplaude e o que você de fato deseja.

Escolher nessa hora exige coragem.

Coragem de enfrentar a expectativa alheia.
Coragem de abrir mão do conforto.
Coragem de assumir que, mesmo dando certo, não era isso.
Coragem de se escutar e não só seguir o fluxo.

É muito mais fácil mudar de caminho quando tudo está desmoronando.
Difícil mesmo é mudar antes de desmoronar.
É olhar para a própria vida e dizer: “eu quero outra coisa”, mesmo quando nada de fora parece justificar essa virada.

A verdade é que priorizar o próprio desejo, o desejo real, não o que te ensinaram a ter, costuma parecer uma escolha irracional. Antieconômica. Insegura. Estranha. Mas, no fundo, é a única escolha que sustenta uma vida que seja sua de verdade.

E quem passa por isso sabe: não é sobre abandonar uma carreira.
É sobre não abandonar a si mesmo.

O que a tecnologia e a psicanálise têm em comum?

Se há algo que a tecnologia e a psicanálise têm em comum, é que ambas lidam com o desconhecido.

Entre código, desejo e subjetividade: por que tantos profissionais de tecnologia buscam terapia e o que a psicanálise tem a dizer sobre isso

O mundo da tecnologia sempre foi associado ao futuro: inovação, velocidade, soluções inteligentes, criatividade aplicada, automação, eficiência. É um campo que move a economia e organiza aspectos essenciais da vida contemporânea e também um universo que, por trás de toda sua lógica, carrega uma complexidade humana que muitas vezes passa despercebida.

Nos últimos anos, tenho observado um movimento crescente: profissionais de tecnologia procurando terapia. Não como último recurso, não apenas em situações-limite, mas como uma busca legítima por um espaço onde aquilo que não cabe nos algoritmos possa ser, finalmente, dito.

E é justamente nesse ponto que a psicanálise, especialmente a perspectiva lacaniana, oferece algo singular: uma escuta que não se deixa capturar pelos discursos do desempenho, da produtividade ou das soluções rápidas. 

A área de tecnologia opera sob uma lógica específica: o novo sempre está chegando, a atualização é constante, a especialização é quase infinita. É um ambiente que exige flexibilidade, excelência e reinvenção permanente.

Do ponto de vista psicanalítico, essa dinâmica toca diretamente um ponto estrutural do sujeito: o ideal.

Nessas carreiras, há sempre um nível mais alto para alcançar, uma linguagem nova para aprender, uma certificação para obter, uma arquitetura mais eficiente para dominar. O ideal nunca se esgota e por isso pode virar um motor de angústia.

Para muitos profissionais, a pergunta que aparece na terapia não é “como ser melhor?”, mas:

“Até quando vou me medir por isso?”

“O quanto desse ideal é meu, e o quanto é do mercado?”

“Quem eu sou quando não estou performando?”

A carreira em tecnologia se torna, para muitos, um cenário privilegiado onde o sujeito se confronta com o que realmente deseja e com aquilo que cumpre apenas para atender expectativas externas.

Por que os profissionais de tecnologia procuram terapia? 

Não é só pelo burnout. Ele aparece, claro. Mas, diante da escuta clínica, o burnout frequentemente se revela como um sintoma que aponta para questões mais profundas, que não começaram no trabalho, mas ali ganharam forma.

Entre os motivos que surgem com frequência, estão: 

1. A pressão constante por desempenho: Mesmo profissionais altamente competentes relatam a sensação de estar sempre atrasados. É como se a régua subisse mais rápido do que eles conseguem acompanhar. 

2. O esvaziamento do sentido: Em certo momento, muitos dizem algo assim: “Eu sou bom no que faço. Só não sei mais por quê faço.” É a crise do desejo, quando o sujeito percebe que funciona bem, mas já não encontra sentido no movimento. 

3. A solidão do trabalho remoto, o home office trouxe conforto e flexibilidade, mas também um aumento significativo na sensação de isolamento. A ausência do laço cotidiano evidencia questões que antes se diluíam no convívio. 

4. A dinâmica das reorganizações e incertezas: Demissões, reestruturações, fusões, mudanças bruscas. Esses eventos, mesmo quando não atingem diretamente o sujeito, produzem um clima de instabilidade que alimenta ansiedade e antecipação. 

5. A distância entre o sujeito e sua própria vida: Talvez o ponto mais comum seja este: a distância entre quem a pessoa é e o que ela vive no cotidiano vai se tornando tão grande que, de repente, algo não sustenta mais. É nesse momento que o sujeito procura terapia, não para encontrar respostas prontas, mas para abrir um espaço onde possa, finalmente, formular as perguntas certas.

O que a psicanálise tem a ver com isso?

Para Lacan, o desejo não é aquilo que queremos conscientemente.
Não é uma lista de metas, nem um conjunto de objetivos profissionais.
O desejo é o que nos move de forma mais profunda, aquilo que insiste, que retorna, que não se explica por métricas de desempenho.

E é justamente por isso que a psicanálise consegue iluminar questões de carreira de um modo tão singular.
Ela não pergunta: qual plano de carreira você quer seguir?
Ela pergunta: o que você está oferecendo de si quando faz o que faz?
O que você encontra ou perde nesse trabalho?
O que está em jogo para você nessa trajetória?

Muitos profissionais de tecnologia descobrem, ao longo do processo analítico, que seu percurso foi guiado mais pelo ideal do que pelo desejo. A análise permite separar uma coisa da outra e, quando isso acontece, algo muda. Às vezes muda o trabalho; às vezes muda a relação com o trabalho.

Em ambos os casos, quem muda é o sujeito. 

A tecnologia opera por lógica.

A subjetividade opera por falta.

A tecnologia busca eficiência.
O sujeito humano é estruturalmente marcado pela incompletude.

A tecnologia tenta prever.
O inconsciente, ao contrário, surpreende e muito.

O diálogo entre esses dois mundos não é impossível; ele apenas exige uma mudança de perspectiva.

A psicanálise não oferece técnicas de produtividade, não traz atalhos, não corrige bugs emocionais. Ela propõe algo que talvez seja ainda mais radical: uma pausa. Um espaço onde aquilo que se repete, aquilo que insiste, aquilo que transborda, possa ser ouvido e interpretado e quem sabe, elaborado.

No universo tech, onde tudo é rápido, mensurável e escalável, esse tipo de espaço é raro e talvez por isso seja tão necessário. 

No fim das contas, o que faz tantos profissionais de tecnologia buscarem terapia e permanecerem nela é algo simples, mas profundo:

Eles encontram um lugar onde podem existir sem performar.
Sem ter todas as respostas.
Sem precisar provar domínio.
Sem métricas.
Sem sprint.
Sem backlog.

Um lugar onde a vida psíquica pode emergir na sua forma própria, com suas dúvidas, suas dores, seus desejos, suas ambivalências.

E é nesse espaço que algo se reorganiza.
Não como quem atualiza um sistema, mas como quem se reencontra consigo mesmo. 

Se há algo que o mundo da tecnologia e a psicanálise têm em comum, é que ambos lidam com o desconhecido.

A tecnologia olha para o futuro do mundo.
A psicanálise olha para o futuro do sujeito.

E quando esses dois universos se encontram, como na PsiT.ech, forma-se um campo fértil para pensar novas maneiras de existir em meio ao digital, sem perder de vista o humano que sustenta tudo isso.

Talvez a pergunta que fique seja:
Como cada sujeito pode construir um lugar para si em meio a tantas demandas, expectativas e possibilidades?
A psicanálise não responde.
Mas ela sustenta a pergunta e é aí que o trabalho começa.

Minha travessia: PsiT.ech

Depois de cinco anos de graduação, muitos estágios, supervisões, leituras, encontros e desencontros — chego ao último mês do curso de Psicologia. Às vezes me surpreendo com a sensação de que tudo passou rápido; outras vezes sinto como se eu tivesse vivido umas três vidas nesse caminho. Talvez eu tenha mesmo.

Essa é a minha segunda graduação. Antes da psicologia, eu vivi muitos anos no universo da computação, mergulhada em lógica, sistemas, tecnologia, resolução de problemas — tudo aquilo que faz o mundo funcionar enquanto ninguém está vendo. Trabalhei, programei, liderei, aprendi e, por muito tempo, achei que era ali que eu ficaria. Até que, silenciosamente, começou a nascer um desejo. Uma pergunta que primeiro sussurra, depois insiste: é isso mesmo?

Com o tempo, percebi que meu entusiasmo pelo humano, pelo que não cabe em algoritmos, pelo que escapa da lógica, era maior do que qualquer linha de código. A decisão não foi simples, nem rápida. Mas veio — e com coragem: pedi demissão no último ano de psicologia para me dedicar integralmente à formação clínica. E aqui estou.

Agora, às vésperas da formatura e com o CRP chegando, estou abrindo oficialmente minha clínica: a PsiT.ech — Psicologia e Tecnologia. Falta pouco! Mas, diferente do que pode parecer, a PsiT.ech não nasce agora. Ela vem sendo construída desde o primeiro semestre da graduação — nos textos que escrevi, nas reflexões que compartilhei, nas experiências que acumulei, nas conversas com profissionais da psicologia e da área tech e nos atravessamentos que fizeram essa ponte ganhar forma. O que nasce agora é apenas a sua fase clínica, profissional, madura.

Por que trabalhar com profissionais de tecnologia?

Porque eu conheço esse mundo por dentro.

Sei o ritmo acelerado, o burnout disfarçado de “alta performance”, os sprints que viram madrugada, a pressão por excelência, os lutos silenciosos da carreira meteórica, a ansiedade das metas, a solidão do home office, as reorganizações repentinas, as demissões em massa. Sei também a criatividade, a potência, o brilho nos olhos de quem ama construir o futuro.

E, ao mesmo tempo, sei o que acontece quando o sujeito se perde no meio disso tudo.

A psicanálise lacaniana — que escolhi como orientação clínica — me oferece um modo de escutar aquilo que não aparece nas redes sociais, aquilo que não se resolve com produtividade, nem com métricas, nem com atualizações de versão. É uma forma de acompanhar cada pessoa na construção singular de seu desejo, longe das soluções prontas, perto do que faz sentido para cada um.


A PsiT.ech nasceu disso ...

De um desejo construído ao longo de duas profissões.
De um percurso que integrou lógica e subjetividade, código e palavra, tecnologia e clínica.
De uma escolha: trabalhar com o que é humano no meio de um mundo cada vez mais digital.

E agora nasce a clínica. Falta pouco.

Pequena, cuidadosa, feita à mão — mas cheia de projeto. Um espaço de escuta, pesquisa, ética e acolhimento, com especial atenção aos profissionais de tecnologia e às singularidades desse campo.

E daqui pra frente?

Agora eu sigo construindo.

Sigo estudando, escutando, abrindo espaço para o novo.

Sigo apostando nesse encontro entre psicologia e tecnologia — um encontro que, para mim, não é apenas profissional, mas existencial.

Se você trabalha com tecnologia, já trabalhou ou está pensando em migrar de carreira, talvez esse espaço também seja para você.

A clínica PsiT.ech abrirá suas portas em breve — depois de cinco anos de gestação — e é um prazer poder compartilhá-la com você.

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Psicologia da Saúde

Luto - A postura do psicólogo deve ser de acolhimento e facilitação do processo ativo de adaptação à perda, com validação e respeito ao tempo singular de cada um. Cabe ao psicólogo oferecer espaço seguro para que tristeza, raiva ou saudade possam ser expressos sem julgamento. Mais do que esperar que o paciente percorra fases fixas, o profissional pode auxiliar no cumprimento das tarefas do luto: reconhecer que a pessoa realmente morreu e não vai voltar (aceitar a realidade da morte), apoiar a vivência da dor e de sentimentos difíceis sem reprimi-los (processar a dor do luto), ajudar na reorganização da vida sem a pessoa, assumindo novos papéis e ressignificando a identidade (ajustar-se ao mundo sem a pessoa) e, por fim, favorecer a construção de uma conexão afetiva duradoura com quem partiu, sem que isso impeça o paciente de seguir vivendo (conexão duradoura com a pessoa morta, sem impedir a vida de seguir), manter lembranças e vínculos afetivos, mas ao mesmo tempo continuar vivendo e se abrindo para novas experiências. O psicólogo atua como presença segura e mediadora, transformando o sofrimento em reconstrução.

 

Cuidados Paliativos - Diante de um paciente em fase avançada de doença, a postura do psicólogo deve articular escuta clínica, mediação familiar e respeito à autonomia do paciente, tanto no hospital quanto no domicílio. É papel do profissional favorecer a expressão de emoções, mediar conflitos familiares e apoiar decisões difíceis, à luz da bioética e da humanização do cuidado. Reconhecer o luto antecipatório, sintomas depressivos e conflitos relacionais (ex:conjugais), oferecendo espaço para expressão emocional e apoio à família. O psicólogo deve favorecer a humanização do cuidado, auxiliando na construção de estratégias de enfrentamento, resgatando a autonomia do paciente e mediando decisões difíceis à luz da bioética, incluindo temas como ortotanásia e dignidade. O psicólogo atua como facilitador de diálogos, ajudando paciente e família a ressignificarem o tempo de vida restante, encontrarem qualidade nesse processo e fortalecerem vínculos afetivos. Transformar a experiência do adoecimento em um processo ativo, significativo e humanizado.

 

Psico-Oncologia - A postura do psicólogo integra escuta clínica, acolhimento e intervenção tanto individual quanto familiar ou em grupo, considerando o câncer como problema de saúde pública multifatorial, de alta prevalência e associado a sofrimento físico e psíquico. O diagnóstico gera intensa fragilidade emocional e desestruturação familiar, e a morte atua como um fantasma, permeado por crenças e estigmas. Além do paciente e da família, as equipes de saúde também sofrem impactos emocionais significativos, demandando atenção ao “cuidado do cuidador”. A atuação do psicólogo deve contemplar os três eixos da Psico-Oncologia: assistência, oferecendo apoio ao paciente, familiares e profissionais em todas as fases da doença; pesquisa, investigando variáveis psicológicas e sociais que influenciam enfrentamento e sobrevida; e organização de serviços, contribuindo para um atendimento integral e para a formação e aprimoramento contínuo dos profissionais. O psicólogo promove mecanismos de enfrentamento (coping), favorece o processamento emocional e fortalece vínculos, humanizando o cuidado e integrando dimensões biopsicossociais do adoecer.

Propósito

Acordar não para trabalhar e sim para manifestar seu propósito. Este é o objetivo da vida, saber quem você é e a partir daí expressar seu eu verdadeiro, compartilhando seus dons sem esforço e sofrimento e sim com alegria e amor. Não é o lugar que determina isso e sim a sua consciência.

Aqui, cuidado emocional e inovação caminham juntos.

Ofereço conteúdo psicológico por meio de textos que tocam o cotidiano, com responsabilidade e sensibilidade. Trago a minha vivência no mundo corporativo de tecnologia atravessada pela psicologia: escrevo sobre luto, ansiedade, carreira, relacionamentos, inteligência artificial, metaverso: sempre com escuta e presença.

Postagem em Destaque

Você passou de fase! Parabéns! 💔 Bem vindo ao Próximo Nível.

Olá Querida , ouvi sua mensagem. Na verdade, ouvi sua mensagem algumas vezes, até estar aqui e responder. Sua mensagem é bonita, é carinhosa...

Um presente

Você é mais do que um irmão, é um amigo, um presente e me acompanha nos momentos alegres e nas aflições. Me dá sempre os melhores conselhos.
Compartilhamos a paixão pelo futebol.💙 Irmã de menino é assim mesmo, junto com as bonecas, a gente vira goleiro, aprende a lavar carros, instalar chuveiro, chef de cozinha. Rs. Trocamos afilhados. E as muitas viagens, nem se fala, as que deram certo e as “roubadas” que nos metemos.
Compartilhamos a mesma casa e a mesma educação, crescemos juntos, vivemos juntos e ninguém nos conhece melhor do que nós mesmos, por isso, quero que saiba que te amo de todo coração, e que, se precisar de algo, estarei bem aqui para te ajudar, para te dar minha força.
Admiro você, sua família, sua empresa ... sua alma, sua jornada nessa vida!!!!
Você sabe que pode sempre contar e confiar em mim. Estamos unidos para o que der e vier, somos cúmplices, não importa o que aconteça.
Quero lhe desejar tudo de bom neste dia, você merece o melhor! Obrigada pela sua amizade, você é a minha certeza e torço bastante por você. Que estejamos cada vez mais unidos.
Seja muito Feliz! Te admiro muito. Tenha um Feliz Aniversário! 🎁

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